Archives For Vagando

va-go!

8 de outubro de 2016 - sábado, Vagando, Xico Barbosa

Vago

Escrevendo o que é o amor.

O amor que sinto,

Que grito,

E além de tudo, 

Que corro atrás.

 

Vadio, vadio! 

Você gritava.

Vazio, vazio!

Eu te alertava.

 

Agora,

Depois da conquista perdida, 

Vago, vadio e vazio,

Cantando suas últimas notas.

Com o coração de borboleta 

Em asas de passarinho.

Vago sem rumo

A esmo

Em território sem dono

E que tampouco pertence a mim.

Não sei onde estou,

Como cheguei.

Estou comigo só e sem ninguém.

É tudo vago, perdido.

Não vejo o Sol

Nem a Lua

Nem a mim.

Onde estou, afinal?

Perdida no sentimento que eu

Já não conheço mais,

Vagando no espaço que nunca me pertenceu

De verdade:

Sou uma estranha nesse seu amor.

Daniela Lusa

Uma vez sonhei que tava sonhando
e dentro do sonho
tinha outro sonho
e outro
e mais outro.
Até hoje
só acordei de alguns.
A realidade é mesmo uma farsa.
O que eu faço de olhos abertos
tem profundidade
mas não tem altura.
Não é fácil chegar no céu
disse a menina com as asas nas mãos.
Realmente
uma vez tentei roubar estrelas
mas sempre me perco
quando não tem onde segurar.
Já pensou
se na verdade
a lua fica no mar
e o que a gente vê lá em cima
é só o reflexo?

Plasticidade

5 de outubro de 2016 - 4a.feira, Carina Destempero, Vagando

Palavras são muito mais maleáveis do que o corpo, uma única palavra pode significar muitas coisas diferentes, cada um ouve o que quer, lê o que pode, o universo inteiro está contido em uma simples palavra, por exemplo, Amor, o que é amor pra mim, pra você, pra uma senhora de 88 anos, para uma criança de 6, pra um russo ou pra um índio? Mas um corpo é um corpo, um braço é um braço, todo o mundo sabe o que é um braço mesmo que o nomeie de forma diferente. Então como fazer arte com o corpo, é nisso que estou pensando enquanto descanso presa pelos pés numa barra rígida e fria, palavras que também uso pra descrever meu coração que parece em estado de criopreservação há eras, eu tento aquecê-lo, sozinha e com outros, me pendurando do jeito que dá, tentando me agarrar com letras e rimas, com arte, escrevo todas as palavras do mundo e nada funciona, mas no fundo, no lugar onde não penso, na ponta dos pés eu sei que a única palavra capaz de trazê-lo de volta à vida é Nós, esse pronome que significa que eu preciso me segurar em você e você em mim, mesmo que a gente não goste, mesmo que a gente se solte e corra sem olhar pra trás até que nossos pulmões falhem e nossos tímpanos explodam e a gente não ouça nem sinta mais nada que não seja um ao outro.

E aí a gente para, que nem eu parei agora, e volta devagar, carregando uma certeza envergonhada de que só Nós podemos nos salvar, mas isso é muito simples e nós não somos pessoas simples, nós não conseguimos apenas admitir, Bom, é isso, nós somos nós e é nisso que está nossa felicidade, então vamos esquecer o resto e vivê-la. Não, nós queremos nos cortar e beber sangue e lágrimas em madrugadas embriagadas, queremos construir um castelo barroco e fazer amor espetacularmente numa cama com dossel, mas até conseguirmos tudo isso nós já nos esquecemos de Nós, então abandonamos mais uma vez o castelo e começa tudo de novo por sabe-se lá quantas vidas, e agora que meus pés já estão cansados de me prender nesse poste de gelo eu me pergunto, eu te pergunto, Será que dessa vez não podemos esquecer a arte, esquecer a beleza, esquecer as palavras e o romance e apenas deixar que nossos corpos assumam a violência daquilo que é inevitável e nos mostrem o que Nós quer dizer?

Carina Destempero

 

O velho do saco

4 de outubro de 2016 - 3a.feira, Luis Mangi, Vagando

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Ninguém nunca soube dizer quando o velho tinha aparecido no bairro, ou de onde ele tinha vindo. Mas já fazia tempo que ele vagava pelas ruas empurrando seu carrinho. Corria os olhos pelas casas, pelas pessoas, pelas calçadas. Catava tudo que pudesse ser reciclado pra vender na cooperativa de reciclagem. Parecia estar sempre procurando. Um corpo que era pura magreza perdido no meio daquelas roupas largas, amarradas com barbante na cintura. Cabeleira grande, toda grisalha, e uma barba tão cheia e comprida que chegava a cobrir parte do tronco. Era barba demais pra corpo de menos. Ficava lá andando pelas ruas, cantarolando músicas de amor. “Palavras são tão poucas pra dizer, que estou vagando assim só por amor”, “É a dor constante e a agonia de um coração cantando amor”. O velho tinha mesmo jeito de louco, mas não fazia mal a ninguém. A molecada logo colocou apelido: velho do saco, de tanto saco plástico que o velho carregava. Eu achava tudo engraçado, mas meu irmão menor tinha medo dele. Era só falar no tal do velho do saco que ele saía correndo, escondia a cara, às vezes até chorava. Tinha gente que xingava o velho, e gente que só ignorava, como se ele não existisse.

A mãe sempre dizia pra gente não chegar perto. Acho que lá no fundo, ela tinha medo dele também. Teve uma vez que a gente saiu com ela pra comprar alguma coisa no mercado, e demos com o velho na esquina. Meu irmão puxava a mão da minha mãe com força, as pernas tremendo. Não sei porque ela ficou parada ali olhando pro velho do saco por tanto tempo. Foi preciso um berreiro do meu irmão pra seguirmos em frente. A mãe ficou com uma cara esquisita o resto do dia. Desconversava sempre que eu perguntava sobre o velho. Era medo mesmo, que nem meu irmão.

Às vezes o velho sumia por várias semanas. O bairro parecia que respirava aliviado. A molecada achava outra coisa pra distrair. Tinha gente que dizia que o maldito tinha morrido, ou quem sabe o velho encontrou um outro lugar pra ficar. Mas então ele aparecia novamente, do nada, empurrando seu carrinho pra lá e pra cá. E tudo voltava ao normal. A molecada implicando com o velho, gente xingando, gente ignorando.

Quando o inverno chegou naquele ano, o velho sumiu novamente. Foi um inverno muito frio, desses que a gente nunca esquece. Todo mundo entocado em casa, com duas mudas de roupa, cobertor grosso na cama. A rua era só silêncio.

E foi num dia de manhã, depois de uma noite fria demais, que o velho do saco enfim apareceu. Estava deitado ao lado do carrinho, lá na esquina de casa, com um sorriso de paz congelado no rosto, e uma foto da mãe amassada entre os dedos.

 

Luis Mangi

Numa manhã de segunda-feira chuvosa e fria acordar com uma boa notícia apitando no celular. Numa tarde de terça-feira quente em que se sente a nuca suar mesmo durante um banho frio, beber um copo de água tão gelada a ponto de fazer contornos na garganta, no esôfago e no estômago, sem, no entanto, causar choque nos dentes da frente. Numa quarta-feira torta em que se caminha em uma calçada triste, encontrar simetria em dois montinhos seguidos de folhas secas, possíveis de serem pisados seguidamente com o pé direito e com o pé esquerdo. Numa quinta-feira de trânsito parado na volta-pra-casa-pós-um-dia-intenso-de-trabalho-e hora-extra, pousar  os olhos despropopositalmente em uma estrela que brilha tanto que te faz desejar fundir-se ao céu. Numa sexta-feira imersa de expectativas tão delirantes que não aconteceriam nem mesmo em um filme do Woody Allen, conseguir se felicitar com um bom dia verdadeiramente  sincero de um estranho de olhos profundos no elevador. Num sábado de tarde no meio da faxina entediante, escutar uma pergunta do filho que te faz desconstruir quase todas as complicações da vida, fazendo tudo valer a pena e um tanto mais. Num domingo de manhã nostálgico com cheiro de jornal-de-papel, gibis-da-mônica-e-do-tio-patinhas, maionese-sendo-feita, costela-assando e crianças-rindo-à-toa, pensar no acúmulo de coisas a serem feitas na semana seguinte, sem se demorar demasiadamente no pensamento, porque a língua esbarrou numa caipirinha de limão bem-feita: O amor só nos toca nos lugares improváveis.