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Aquela moça um dia seria minha, aquele ritmo, aquele movimento, aquelas curva, aquela vontade.

 

Duas vezes por semana. Terças e sabados, eu sento naquele balcão, peço uma bebida qualquer, sorrio falsamente para os outros frequentadores, sinto um certo desprezo por eles; assumo. Sou recém-separado, não tenho filhos. Tenho um amor. Ela se chama Tábata (ou pelo menos é assim que a conhecem por lá, sobe ao palco exatamente as 21h12 ao som de Madonna, passa por aquela passarela lambuzando a todos com sua libido, desperta tesão até de onde voce jamais imaginou.)

Eu tenho certeza que alguma coisa entre nós existe. Alguma magica. Quando trocamos olhares é algo fora do comum, transcedental. Toda minha energia canaliza-se por entre minhas pernas e toma forma. Ao mesmo tempo ela toma por completo aquela pista. Aquele cano. Sobe, desce, enrosca. Abre-e-fecha. Um despudor até para com as palavras.

Vislumbro daquele balcão o que somente meus olhos veem: uma menina, uma doce inocente santa. Meus olhos não erram. Meus olhos são calejados já. Posso jurar de pé junto que aquilo é apenas uma forma que ela encontrou de ajudar a toda a familia dignamente. Não consigo crer que ela faça aquilo com gosto, com prazer. Isso é inconcebivel!

(Não aceito ouvir gracejos, brincadeiras baixas, palavras sujas dos outros animais, vulgo clientes punheteiros.)

Eu defendo com unhas e dentes cada metro de perna daquela mulher. Cada vez que ela envia um beijo, uma piscada eu me apaixono de novo. 

E tenho a nitida sensacao de ser unico. De ser dela. E sei, ela é minha 

(ao menos as terças e sábados, quando eu tenho como ajudá-la a inteirar o valor do aluguel)

 

 

Eu não sei como explicar, mas vou tentar. Acho que foi o seu olhar — tão bonito, tão marcante, tão forte a ponto de prender o meu. Pode ter sido o seu sorriso — tão sincero, tão bem desenhado, tão radiante a ponto de me tontear. Ou foi o seu jeito — tão tímido, tão rápido, tão desajeitado a ponto de me desajeitar também. Na verdade, foi o seu abraço — tão forte, tão bom, tão imenso que me fez perder a noção de mim. Não sei, moço, eu não sei exatamente o que me prendeu a você. Só sei que agora estou aqui, presa, imóvel — e sem pressa de sair. Deixa eu morar no seu abraço? Rabisco seu nome nas minhas incertezas, desenho seus olhos na minha saudade, vejo o seu sorriso em todos os cantos da minha calmaria. Acho que você combina com o meu caos. Será que você pode me organizar? Vejo a imagem de nós dois que vai dançando na minha mente desde que acordo até a hora de dormir, isso quando não aparece nos meus sonhos. O que isso significa? Você sabe me dizer? Será que você nos vê também? Eu não sei mais o que escrever para explicar o que sinto por você, moço, porque você me deixa confusa. Como explicar o que nem eu entendo? É tudo meio estranho desde que te conheci, não estou me reconhecendo. Não sei mais o que estou sentindo, não sei mais o que estou dizendo, não sei. Mas esteja por perto quando eu descobrir. Do amanhã? Não consigo prever. Do amor? Não sei dizer. De nós? Não sei o que vai ser. Quer fazer parte das minhas confusões? Ainda não sei que lugar você ocupa no meu espaço. Eu só quero saber o que você fará comigo quando eu estiver em você. Faça alguma coisa, moço, porque eu não sei o que fazer com você em mim. 

Daniela Lusa

Dança

14 de novembro de 2013 - 5a.feira, Something, Xico Barbosa

"Duas rosas brancas a exalar
Um perfume que nunca senti
Bate as asas doce colibri
Vem! Me ajude a esquecer quem sou
E, pensar, serei feliz"
Um novo sonho – Paulinho Pedra Azul

Venha me balançar.
Entre seus lindos cabelos,
Ensine-me a mover a vida como você move.
Movimente-me.
Assim.
Dance a próxima dança,
Desse jeitinho,
E sem pensar em mais nada…
Me beije…

Garota linda,
De doces olhos,
Mova o mundo comigo…
Linda garota,
E sem pensar,
Voemos juntos até o infinito…

Balance agora,
Com a brisa que vem do mar,
Me ajude a fazer a vida leve como você faz,          
Leve-me.
Assim.
Flutue nesse azul caribenho,
Com  essa leveza,
E sem pensar em mais nada…
Me devore…
 
Linda garota,
Do sorriso alvo,
Mova o mundo comigo…
Garota linda,
E sem pensar,
Sigamos juntos até ao infinito…

Inominável

13 de novembro de 2013 - 4a.feira, Carina Destempero, Something

Você passa e não me vê, não me olha, não me dá a menor bola, e eu fico aqui, tentando descobrir, tentando adivinhar, tentando entender, o que é que você tem que me deixa assim, no chão, sem chão, nas nuvens, em todo o lugar e em lugar nenhum, e enquanto isso tenho que aturar esse cara chato, do meu lado, grudado, sem calar a boca um segundo, contando histórias, contando vantagem, contando pontos que acha que tá fazendo comigo por ser gentil, educado, bem sucedido, eu escuto a voz dele, eu me esforço pra prestar atenção, ouvir, sorrir, mas só consigo pensar em por que você não olha pra cá, como eu vou me fazer notar, e se você não me vir, e se você estiver com outra, e se ela for linda, e se ela for feia, e quando já estou a ponto de enlouquecer, ou desistir, você aparece de novo, e agora você me olha, você me vê, você parece me enxergar melhor do que eu, me sinto nua, tua, me sinto completando os doze trabalhos de Hércules ao mesmo tempo só por não largar tudo e sair correndo na sua direção, você sorri e eu desmaio, me desfaço, não consigo disfarçar, o chato se irrita e me pergunta no que eu estou pensando, eu dou uma desculpa, ou falo a verdade, não faço ideia do que eu digo, sei que ele vai embora, eu não, eu fico, eu continuo, ali, parada, presa no seu olhar que já nem está mais em mim, já passou pra bebida, pro seu amigo, pra morena dançarina do Tchan que passa jogando o cabelo pra você, penso em como ela é ridícula, como você é idiota, como eu sou estúpida, e decido ir embora, mas você me chama, sem se mexer, sem falar, só sinto seu olhar me queimando e paro, como uma criança brincando de estátua, esperando que você venha me transformar em gente, ou em bicho, ou em flor, tanto faz, esperando que você venha, só isso, e você vem, e você sorri, e você não fala nada, e você segura a minha cintura, e você puxa o meu cabelo, e você me beija, e me beija, e me beija, e quando você para de me beijar eu te pergunto o que você fez pra me deixar assim, e você diz, Se eu te contasse teria que te matar, e sorri, e ali eu penso, pode contar, eu já morri.  

Carina Destempero

credere

12 de novembro de 2013 - 3a.feira, André Salviano, Something

advertência

essa é a história de um casal que conheci em meus sonhos. qualquer semelhança com a minha vida será mero biografismo de quem me lê.

era uma vez

tristão, que andava pelas ruas e bares da lapa superficialmente alegre, conhecera isolda num reino distante e logo perceberam que tinham muitas afinidades. de volta à corte, se esbarraram num baile, e sequer sonharam que justo aquela noite, marcaria suas vidas de maneira indelével.

havia algo no andar de isolda que impressionava tristão, seu comportamento, o jeito de sorrir. mas nada disso foi notado de cara. era estranho, mas assim como sempre aconteceu com nosso herói romântico, aqui também não houve paixão a primeira vista. na fatídica noite, de tantos acontecimentos confusos e inusitados, e já meio altos pela bebida, se pegaram conversando a sós, em meio a multidão que se espalhava pelo salão, entre uma dança e outra. tristão decidiu, sabe-se lá porquê, dizer a isolda o quanto a admirava. isolda não pareceu ser pega de surpresa, e se mostrou recíproca. 

mas a vida é real, e é de viés

já cantava um trovador contemporâneo dado a polêmicas biográficas e otras cositas más. isolda disse que também o achava um homem interessante, mas não queria se envolver. tristão bebeu mais ainda e resignado, esqueceu da felicidade superficial costumeira e curtiu aquele spleen que sempre lhe é tão caro nesses momentos.

um mês depois

tristão e isolda continuavam se esbarrando, principalmente na corte lapeana, mas o herói fazia questão de não se ater a seu sorriso, que em algum lugar do seu id, já o tinha enfeitiçado. talvez soubesse que não precisava de outra, mesmo assim o beijo demorou a acontecer. e quando trocaram o primeiro, foi de maneira tão inusitada que até hoje tristão lembra de cada segundo que o antecedeu. dentro de uma carruagem os dois deixaram que tudo que tinha sido dito durante o baile no mês anterior se transformasse em realidade.

mais um tempo onírico depois

entre incertezas, e ensaios de término daquilo que ainda estava germinando, continuaram. sem perguntas, e sem se darem conta, o que não ousavam dizer ou admitir, foi crescendo. e mesmo quando em reinos distantes, tudo o que tristão tem a fazer, e faz, é pensar nela. isolda, a quem dedicou tantas rimas desde então.

final feliz

todo conto de fadas que se preze, mesmo aqueles que se passam na lapa, precisam de um final feliz, só que aqui, nessa história, o final está aberto. a última vez que tristão me apareceu em sonhos, e ele aparece regularmente, confessou que está muito apaixonado. e isso me fez lembrar um outro trovador, infelizmente já falecido, que cantava o seguinte, e quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração.


despedida

vou ficando por aqui, porque alguma coisa sempre pode ser mais do que aquilo que pretendia ser. até o próximo sonho, leitoras.