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Na semana do dia 03/04/2017, o desafio literário proposto por Xico Barbosa foi:

Uma pessoa acorda. Corre a mão pela cama e não encontra o outro. Debaixo do travesseiro há um bilhete. Qual o sentimento ao encontrá-lo? O que está escrito? Como ela ficou após a leitura?

Para essa semana, Xico propõe o seguinte desafio:

Escreva agora a visão do autor do bilhete. O texto deve ser baseado no texto do confrade do dia anterior.  Ana usará o texto publicado por Xico. Mangi , o de Ana. Carina, o de Mangi. Tiago, o de Carina. Julia, o de Tiago. Xico, o de Julia.


Textos publicados para este desafio:

26/06 - TEMPO

O bilhete em cima da cama carregava os dizeres "pra você deixo o seu tempo no seu prazo. comigo levo apenas o tempo que não tive a chance de compartilhar”

Por um bom tempo, essas palavras ressoaram em mim. Nos primeiros dias eu as sentia como uma faca que, enfiada no meu peito, era torcida e retorcida. Aos poucos, aquela dor horrível, que começava no peito e se espalhava por todo o meu corpo e até fora de mim – às vezes eu tinha a sensação de que a via no ar, juro – foi diminuindo e me causando uma sensação de amortecimento, até que, recitar aquelas palavras dentro da minha cabeça, saborear cada sílaba, passou a me acalmar, como um mantra deve acalmar quem consegue recitar mantras.

"Pra você deixo o seu tempo no seu prazo". Se isso me doía muito antes, depois, me fazia rir. É muita audácia a pessoa achar que deixou tempo para mim. Meu tempo sempre foi meu, ainda que tenha dançado com o tempo dele por algum tempo. E o meu prazo, ainda mais. Agora vejo que ele me oferecia o que sempre foi meu, como se não o tivesse sempre sido. E assim eu fui acreditando que precisava dele, que eu não poderia viver sem ele, que sozinha eu apenas sobreviveria. Babacas. Eu e ele. Ele por dizer as mentiras mais ridículas, eu por acreditar nelas. A gente cai em buracos absurdos quando está carente. É cada ladainha…a carência é um perigo. Não há golpe do bilhete premiado que seja ridículo o suficiente para o excesso de carência.

"Comigo levo apenas o tempo que não tive a chance de compartilhar".
E por acaso tempo é algo que se compartilhe? A gente pode até gastar tempo com alguém, mas jamais compartilhar o tempo, pois o tempo é único pra cada um. Mas eu o entendo, é que pra ele, tempo é o tempo do relógio. Essa é uma forma tola de entender o tempo. Se ele tivesse escrito "tempo" no facebook eu compartilharia. Juro. Mas isso é tão ridiculo quanto acreditar que o tempo que acontece entre duas pessoas que se deixam tocar uma pela outra é medido pela cronologia e não pela intensidade. Já tive noites avulsas com homens que duraram muito mais tempo do que relacionamentos que duraram anos. No amor, "tempo" é advérbio de intensidade. Ele já sabia que eu pensava assim, sei que escreveu de propósito.

O bilhete me lembrou um dos meus primeiros mantras, um mantra infantil "O tempo perguntou para o tempo:
Quanto tempo o tempo tem?
O tempo respondeu para o tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem."
Na semana que esse mantra me retornou, fui pesquisar a autoria e descobri que isso que eu pensava ser uma poesia, na verdade é um trava-línguas que nem autoria tem.
Foi bem essa a passagem que fiz com as palavras dele nos últimos meses. Se antes o que ele dizia era poesia pra mim, independente da dor ou do mel que me causavam, agora são só imagens acústicas que o vento carrega por aí. 
Acabou-se o tempo em que meu corpo era feito e refeito pelas palavras dele. Agora sou puro efeito do meu próprio tempo.


Desafio da Semana:

- Um bilhete debaixo do travesseiro – a perspectiva de quem escreveu o bilhete