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olhei para o relógio. faltava apenas uma hora para o do encontro que me tiraria de vez da solteirice.  calculei  meu tempo. joguei no waze. tudo batia. em vinte minutos chegaria no local. um banho rápido e seguro. calça jeans, chinelos limpos, dreads secos e perfume no pescoço. tudo dentro do esperado. procuro meus óculos, coloco-o no rosto e saio feliz. entre um poste e um buraco, lá estava eu. sujo e caído! meus óculos não seguraram a onda dessa vez. levantei, olhei para a placa da rua para ver onde estava. pus-me a caminhar para um lugar seguro.

já faz três meses… eu ainda solteiro. porém, depois da cirurgia, nunca mais cairei em buracos por causa  dos óculos! só ficarei torcendo para remarcar o encontro que não houve.


Desafio da Semana:

19/06 - Eu uso óculos

Obviamente o cabelo amanheceu um horror.

Passei pomada, piorou.

Lavei de novo.

O filho da puta que inventou a etiqueta,

devia ter cabeleireiro em casa.

Um chapéu resolveria minha vida.

Pedi ajuda com minha roupa

e Catarina resolveu tudo.

Uma coisa a menos.

Lembrei daquela gente toda que vai assistir,

a dor de barriga voltou.

No tempo que levei cagando

repassei minha falas.

Fazia tempo que eu não via gente.

Só Catarina mesmo,

e o Márcio do delivery.

Essa convenção me apavorava.

Sei que o mérito era meu.

Eu tinha que ir.

Mas me apavorava.

No Uber comi todas as balas.

Esperando que o microfone

não captasse o barulho da minha barriga.

Saindo do carro, um trator.

Meus óculos voaram.

Estavam destruídos.

A desgraçada nem parou pra olhar.

Se parou, eu também não vi.

Não tava vendo porra nenhuma.

Maior que meus seis graus de miopia,

só o meu desespero.

No saguão me receberam.

Resolvi sorrir, já que não reconhecia ninguém.

Uma mulher vinha na minha direção.

Dois passos antes dela chegar,

não reconheci Catarina.

Ela riu com a situação.

 

– Você não tá enxergando nada?

– Fala baixo, porra. Ninguém sabe.

 

Me levaram para frente do palco.

Ouvi meu nome.

Salva de palmas.

As pernas quase não caminharam.

Subi lentamente e me virei com pavor.

A plateia era turva.

Um Monet no fim da vida.

Poucas pinceladas eram no vermelho.

Sorri pra mais próxima,

torcendo que fosse Catarina.

Ninguém naquela pintura parecia me olhar.

Me senti bem.

Quando acabei,

a plateia embaçada se levantou.

As palmas de satisfação

recompensaram meu nervosismo inicial.

Meus olhos molhados,

fizeram da visão uma aquarela.


Desafio da Semana:

- Eu uso óculos

A menina com miopia perdeu os óculos no caminho da entrevista. Não enxergou mais nada de importante. Agora, as lentes da vida mostram só as desimportâncias.


Desafio da Semana:

- Eu uso óculos

O que você faz quando o motorista do ônibus passa em cima de uma poça d'água enquanto você está na calçada e te molha inteiro?
O que você faz quando, totalmente encharcado, tira os óculos pra limpar em algum lugar seco escondido debaixo do casaco e um motoqueiro surge do nada derrapando tão perto de você que o susto te faz derrubar os óculos?
O que você faz quando, sem enxergar praticamente nada devido aos seis graus de miopia, você apenas escuta o barulho do óculos batendo no chão, sente que todos à sua volta começaram a se mexer, e vislumbra um borrão verde onde sabe estar o sinal de pedreste e entende que seus óculos estão perdidos e despedaçados na manada que atravessa a rua correndo na chuva?
O que você faz enquanto atravessa a rua quase levado pela multidão, quando lembra que falta apenas meia hora pra prova começar, e que se perder essa chance terá que esperar até o ano que vem?
O que você faz quando consegue, sabe-se lá como, chegar ao local da prova, mas está tão tomado de raiva pela chuva, pelo motorista de ônibus, pelo motoqueiro, pelo universo, que não consegue se concentrar nem pra ler a questão da prova, muito menos respondê-la, ainda mais porque precisa quase colar os olhos no papel para enxergar e já está ficando com dor de cabeça?
O que você faz quando derruba a prova, o fiscal pensa que você está colando, mas acaba se convencendo que não, e seu coração aos poucos vai voltando ao ritmo normal, e o susto traz uma lucidez que se parece muito com um novo par de óculos?
O que você faz quando entrega a prova sabendo que não acertou tudo, mas que fez o que pôde?
O que você faz quando percebe que não desistiu?
O que você faz quando lembra dos óculos perdidos, e se assusta ao lembrar de tantas vezes que usou ele e outras coisas como desculpa para não fazer algo que precisava fazer?
O que você faz quando nada acontece do jeito que você imaginou, quis e esperou?
 
Viver é caminhar na chuva, molhado, sem óculos, com seis graus de miopia, e ainda assim continuar.
 
Carina Destempero

Desafio da Semana:

- Eu uso óculos

Quando você tem 6 graus de miopia aos 13 anos de idade e está indo encontrar a garota que você planejou e ensaiou como pedi-la em namoro mais de 6 mil vezes (e em todas elas ela recusou) mas mesmo assim você enche o peito de coragem e vai, torcendo para que pela primeira vez na vida você esteja errado (e aos 13 anos de idade uma primeira vez importa tanto quanto uma vida inteira de uma pessoa que viveu intensamente até os 600 anos de idade), quando você já está em cima da hora para encontrá-la na praça, quando você sai descendo as escadas do prédio segurando o lixo da cozinha o mais distante possível do corpo para não ser impregnado pelo fedor de resto de suco de laranja de ontem- tudo o que você não precisa, mas tudo o que você não precisa mesmo, é, de repente, num instante, ter uma perna direita que tem um ataque instantâneo de alzheimer, e, misteriosamente, se esquecendo como anda, não anda, e então, a outra perna, a esquerda, continua descendo as escadas sozinha, o que leva seu tronco a pender para a direita, que era a mão que segurava o saco de lixo, então ter que soltar o saco de lixo, deixar a os restos que sua família produziu em dois dias se esparramar pelo chão e escorrer pro seu próprio corpo e ainda ver, enquanto sente seu joelho ralar no degrau da escada, seus óculos voarem pro andar de baixo e trincarem de um jeito que ficam mais parecendo um mosaico de igreja feito por um aluno de maternal na aula de artes. Nem nas minhas fantasias mais desastrosas alguma coisa perto disso aconteceu.

Mas quando você tem 13 anos nos anos 90, você não pensa que pode voltar pra casa e aí mandar um whatsapp pra ela dizendo que vai se atrasar um pouco, então se recompor e ir ao encontro dela, porque, oras bolas, são os anos 90 e se você ligar pro telefone da casa dela há grandes chances de que a mãe ou o pai dela atendam o telefone. Mas quando você é um garoto corajoso nos anos 90, você vai mesmo assim ao encontro dela, tateando as paredes pra continuar descendo as escadas com o lixo ou com aquilo que foi possível catar do lixo na mão, nem tão devagar assim porque você agora está oficialmente atrasado, e buscando mentalmente um modo que não seja tão humilhante de dar oi para a garota que lhe aguarda, com alguma dignidade.

Então, quando você tem 13 anos de idade e essa tragédia anuncia acabar com a sua vida, você apenas torce para que a menina não esteja mais lá quando você chegar, porque assim você poderá não passar por essa desgaraça de situação na vida, mas também poderá dormir à noite porque a culpa não vai te morder dos calcanhares aos ângulos mais ocultos do cérebro a noite toda.

Mas a coisa que você menos imagina que vai acontecer, aos 13 anos de idade, é que, após 6 décadas, uma cirurgia para miopia e uma para catarata, isso em cada olho, ela ainda te constranja em frente aos amigos e à família contando como foi que você deu um beijo de oi cheio de segundas intenções na bochecha do irmão dela que ela teve que levar junto para que os pais a deixassem ir ao primeiro encontro, porque ela o deixou no banco em que marcamos para comprar chicletes, já que eu estava demorando.

 

Ana Suy


Desafio da Semana:

- Eu uso óculos

O desafio literário da semana é de Julia Nogueira:

Uma pessoa com 6 graus de miopia está em cima da hora para um compromisso muito importante, e no caminho o óculos de grau quebra.

 


Textos publicados para este desafio:

- QUANDO VOCÊ TEM 13 ANOS
21/06 - O que você faz?
22/06 - A pequena história de uma grande menina
23/06 - Visão aquarela
24/06 - cirurgia