Archives For Semana 12 Jun a 17 Jun

no ponto do ônibus, espero mais trinta minutos.
o último passou e fez de conta que nem me viu. 
e eu aqui, na esperança de chegar ainda antes das vinte. preparar o jantar e espera-la chamar pelo interfone.

quase toda vez é a mesma história. alguns não possuem o elevador, o motorista avisa que o próximo tem e pede pra esperar. eu espero o próximo e às vezes, o próximo do próximo do próximo. e mesmo quando o próximo chega, alguém de cara fechada, olha puto da vida de liberar o espaço destinado a mim, ou a outro como eu, com necessidades especiais para locomoção. 

eu sei que todo mundo está cansado. eu trocaria todo o cansaço do mundo para poder me levantar dessa cadeira. mas, infelizmente, depois daquele acidente, não posso mais faze-lo. e me resta agora, esperar o próximo para que talvez ainda consiga chegar em casa antes das vinte. 

já se passaram dois próximos. acredito que no próximo, consiga embarcar e finalmente começar a ir pra casa. 

hoje é aniversário dela. tenho tudo planejado. um jantar digno. um recital de algumas novas poesias. um garrafa vazia no final da noite, um sono bom durante a noite e um despertar sem vestes no amanhecer. 

finalmente chego em casa, após esperar uns cinco próximos. começo os preparativos e a espero com o coração cheio de borboletas, o próximo tocar de interfone dela. 


Desafio da Semana:

12/06 - Limites

O jantar era na casa dele. Expliquei que era alérgica a ovo. Deveria ter falado que não tenho uma perna? Os últimos homens passaram rápido. Com um toque já não sabiam mais lidar. Contar tem sido terminar relacionamentos que mal começaram, resolvi esperar. Nos dois encontros que tivemos, a rapidez dos pensamentos dele parecia combinar com o tempo. Que não esperou em nem um momento, e já foi me deixando com frio na barriga e sorriso bobo. Escolhi uma lingerie prata que combinava com a prótese nova. Eu gostava, tinha um quê futurístico. Minhas mãos estavam geladas, mas meu coração quente. Eu estava pronta.

***

Nunca tinha visto um sorriso mais bonito.

Ela sorri com o corpo todo.

E eu sorrio quase sem ação

porque ela toda, sorri na minha direção.

As mãos leves vêm até a boca

– que por sinal faz um encaixe perfeito na minha –

e tentam conter uma energia que não se refreia.

Os cabelos,

como ondas de alegria

emolduram seu rosto.

Que possui um imã,

puxa o meu pra perto e me ilumina de tabela.

De frente pra ela o resto congela.

 

Chamei pra jantar em casa,

contei que era pequena.

Será que devia ter falado que não sei cozinhar?

Comprei tudo congelado.

Sem ovo, ela é alérgica.

Escondi bem as embalagens

e torci pra ter gosto de comida caseira.

 

A campainha acelerou meu coração.

Prendi a respiração.

Ela ali na soleira da porta,

parecia holografia.

Uma que minha mente tinha criado.

Nossos olhos se mergulharam

e cada um ganhou mais um pouco.

Ela de mim e eu dela.

 

Entrei na frente

arrumando as pequenas bagunças no caminho.

Escondendo o que achava que ela pudesse não gostar.

Esquecendo que ela gostava era de mim.

 

Sua pele preenchia minhas mãos.

Nossas roupas o chão.

Ela me olhou nos olhos e me disse que não tinha uma perna.

Fui obrigado a contar que a comida era congelada.

Ela riu, acho que não ligou.

Encostei na sua coxa estática.

Perguntei se ela era humana mesmo,

ou se tinha sido toda feita pra mim.

Ela disse que era.

E que eu era todo feito pra ela.


Desafio da Semana:

- Limites

O menino tem um coração a mais
e mesmo assim
não sabe o que é amar.
A vida é cheia de
(d)eficiências amorosas.
Já parou pra pensar
como deve ser triste
um armário trancado
e tanta roupa ainda do lado de fora pra guardar?
A flor que não vê água
mesmo com uma sede danada.
O menino tá seco de amor
nem dois corações são suficientes
pra regar o guarda-roupa.
Quantos quadros
a gente tem que tirar da parede
até sobrar espaço
pra mais alguém?
A menina ali sentada no metrô
parece que tem um (a)braço só.
Deve ter perdido o outro num acidente.
Às vezes o amor vai rápido demais
e não sabe frear.

 


Desafio da Semana:

- Limites

O pior
cego é o que pode ver
mas não enxerga
minha mãe repetia
a cada vez que eu
me machucava
me lamentava
me irritava
a cada vez que eu
culpava meus olhos
falhos pelas falhas
da minha vida
eu a ignorava
achava que era
pena
culpa
negação
um sentimento menor
que a fazia repetir essa frase
até que um dia
eu vi
que ela tinha razão
quando um não-cego
que eu amava
não conseguiu enxergar
uma traição
e vi de novo
quando um amigo sem
problemas de visão
não reparou que o grande
amor
que ele buscava
já estava ao seu lado
quanto mais os anos
passavam
mais eu enxergava
mesmo sem ver
passei a enxergar com
os pés
as mãos
a alma.
Por isso hoje
não me irrito mais
quando paro em frente
a um espelho
e não vejo
se tenho olhos escuros
se meu nariz é grande
se minha testa é desenhada por rugas
quando paro em frente
a um espelho
ou a um vidro
ou à uma parede
quando apenas paro
e me deparo
com o vazio que a cegueira
me traz eu me enxergo
livre
eu me descubro
infinito
e abro um sorriso
que sei que é lindo
sem nem precisar
olhar.

Desafio da Semana:

- Limites


Sentaram-se à mesa às nove horas. Era para ser um jantar de celebração, desses que casais de namorados fazem nesse dia. A comida era farta mas, de alguma forma, se viam coagidos inconscientemente a adiar o máximo aquele momento. Nenhum sabor seria capaz de seduzir o paladar agora. Nenhum prazer era possível.

Permaneceram os dois ali sentados sem dizer uma palavra, interrogando as paredes, os objetos da sala, os pratos na mesa. Interrogando com olhos irrequietos, mas que já não tinham mais brilho algum. “Há uma tensão paradoxal entre o silêncio e a expressão”, me disse uma vez um amigo, hoje distante. Era para ser um jantar de celebração, lamentavam os dois, e era o silêncio que me dizia isso. Um silêncio diferente do meu, imposto por genes defeituosos. Uma vida interrompida já no primeiro choro, na primeira respiração, no primeiro contato com o mundo exterior, este mundo opressivo e apavorante.

Amigos de todas as horas, cúmplices de lutas diárias, por que se calavam agora? O que os detinha e impedia seus passos? Por que haviam desertado de tudo?

Ninguém jamais diria, eles certamente não me diriam, mas, no entanto, era tão óbvio. Julgavam o seu passado e culpavam-se mutuamente pelos meus genes defeituosos, pelos sonhos que não realizaram, pelos planos que não foram à frente.

Até que ponto tinham interrompido suas vidas?

Sem acusar, sem dizer palavras, permaneciam os dois sentados. E nunca havia sido tão doloroso para mim assistir à sua vulnerabilidade. Nunca as cadeiras e a mesa de jantar foram tão francas. Nunca as paredes da casa me pareceram tão frágeis.

Essa noite não ficou registrada. Nenhum dos dois pegou o celular. Não houve fotos nem selfies. Nenhum dos dois se empenharia em lembrar daquela noite. Por alguma razão, porém, a cena chega até a mim tantos anos depois. Um imagem quase estática. Um milissegundo resgatado na infinidade do tempo. Meus pais sentados em silêncio, prostrados diante da mesa, os ombros curvados, as cabeças baixas, e a comida ainda intocada.

 

Luis Mangi


Desafio da Semana:

- Limites

O amor é cego, 
mas não cego como eu, 
onde tudo é absolutamente branco ou
absolutamente preto e 
tanto faz se é branco ou preto,
porque eu nunca vi as cores com os olhos.
(Assim como o amor, 
nasci cega.)
O amor é cego 
porque vê as coisas com os olhos não-óbvios, 
tal como eu vejo o amarelo
por uma certa textura nas pontas dos dedos, 
ou a cara de felicidade da minha mãe pela respiração dela,
ou a cara de bravo do meu namorado pelo som que suas bochechas exalam, 
ou como eu vejo os tênis sujos do meu filho 
pelo som que fazem no contato com o chão.
(Assim como o amor, 
vejo sem olhos)
O amor é cego
e não é porque não vê 
o que todo mundo vê,
O amor é cego porque vê 
o que ninguém mais sabe enxergar.
(Assim como o amor,
aprendi a fazer dos meus limites a minha força)


Desafio da Semana:

- Limites