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olhei para o relógio. faltava apenas uma hora para o do encontro que me tiraria de vez da solteirice.  calculei  meu tempo. joguei no waze. tudo batia. em vinte minutos chegaria no local. um banho rápido e seguro. calça jeans, chinelos limpos, dreads secos e perfume no pescoço. tudo dentro do esperado. procuro meus óculos, coloco-o no rosto e saio feliz. entre um poste e um buraco, lá estava eu. sujo e caído! meus óculos não seguraram a onda dessa vez. levantei, olhei para a placa da rua para ver onde estava. pus-me a caminhar para um lugar seguro.

já faz três meses… eu ainda solteiro. porém, depois da cirurgia, nunca mais cairei em buracos por causa  dos óculos! só ficarei torcendo para remarcar o encontro que não houve.


Desafio da Semana:

19/06 - Eu uso óculos

no ponto do ônibus, espero mais trinta minutos.
o último passou e fez de conta que nem me viu. 
e eu aqui, na esperança de chegar ainda antes das vinte. preparar o jantar e espera-la chamar pelo interfone.

quase toda vez é a mesma história. alguns não possuem o elevador, o motorista avisa que o próximo tem e pede pra esperar. eu espero o próximo e às vezes, o próximo do próximo do próximo. e mesmo quando o próximo chega, alguém de cara fechada, olha puto da vida de liberar o espaço destinado a mim, ou a outro como eu, com necessidades especiais para locomoção. 

eu sei que todo mundo está cansado. eu trocaria todo o cansaço do mundo para poder me levantar dessa cadeira. mas, infelizmente, depois daquele acidente, não posso mais faze-lo. e me resta agora, esperar o próximo para que talvez ainda consiga chegar em casa antes das vinte. 

já se passaram dois próximos. acredito que no próximo, consiga embarcar e finalmente começar a ir pra casa. 

hoje é aniversário dela. tenho tudo planejado. um jantar digno. um recital de algumas novas poesias. um garrafa vazia no final da noite, um sono bom durante a noite e um despertar sem vestes no amanhecer. 

finalmente chego em casa, após esperar uns cinco próximos. começo os preparativos e a espero com o coração cheio de borboletas, o próximo tocar de interfone dela. 


Desafio da Semana:

12/06 - Limites

rotina

10 de junho de 2017 - sábado, Semana 05 Jun a 10 Jun, Texto

fico aqui. parado. toda a semana. no canto. escondido. contando nos dedos, se é que algum dia tive dedo, os dias que se passam. os dias que chegam. e os dias que terei alguma utilidade.

o ritual é sempre o mesmo. pulo de alegria, como se algum dia eu tivesse pernas pra pular, quando o vejo entrando por aquela porta. aquela ali, no cantinho, que abre caminho para o corredor, todo sorridente. certo que é o dia da festa. olha para o lado de cá. suspira profundamente. da aquele sorriso de cafajeste que só ele tem. pega um prato. abre a geladeira nova, a antiga ficou na outra casa. coloca algo no prato e com a faca começa a cortar em cubos. às vezes leva ao forno, noutras ao fogão. e tem vezes que vai direto do prato. após esse ritual, leva o prato pra mesa de vidro da sala.

e novamente entra pela porta. aquela ali. isso!, a do corredor.

novamente vai até a geladeira. aí, meu amigo, meu coração acelera! se ê que algum dia tive coração. abre a porta maior, corre os olhos por dentro da geladeira. escolhe a prenda com os olhos. e com o mesmo sorriso de cafajeste, traz a garrafa em sua mão. enfia a outra mão no bolso, pega o abridor e saca a tampinha. o cheiro da cerveja preenche o ambiente. finalmente ele olha pra mim com vontade!

sorrio! me abro todo! ele me pega com sua mão generosa. e generosamente, vou fazer trocadilhos sim!, preenche-me com ela. e a mesma mão generosa me guia até sua boca. aquela boca cafajeste. aqueles lábios cafajestes. e pouco a pouco vou me esvaziando por ele. e essa ida e vinda, perdura-se pela noite adentro. e eu, um simples copo, torno-me seu objeto de desejo. e ele, o homem da boca cafajeste, torna-se meu servo.

finalmente sou colocado no canto do armário. e pacientemente aguardo a próxima sexta, ou quem sabe, a próxima quarta! 


Desafio da Semana:

5/06 - Objetos

– espera!
– esperar o que, clarissa?
– é que estou fritando ovo, uai! vai passar do ponto.
– é sério isso?
– claro! quem gosta de ovo duro?
– assim fica difícil, enquanto falo do meu amor, minha admiração, meus anseios perante a ti. você fica fritando ovo?
– meu filho, pensa bem. se você não respeita minha fome, vai respeitar a vida?

sem pensar muito, desligou o telefone, retirou o ovo da frigideira e com ele ainda quentinho estourou gema mole  sobre o arroz recém refogado.


Desafio da Semana:

29/05 - Conversando e fritando um ovo

"quem muito aperta, entre os dedos escapa!"
era assim que fernanda retrucava o pai quando a proibia de sair. este ficou sabendo do "estranho" relacionamento da filha única com a amiga juliana. elas estudaram no mesmo colégio. "conceituadíssimo" – diziam os pais das duas.


aliás, os pais das meninas nutriam uma amizade de longa data. se conheceram ainda nos idos de 1960, quando serviram no mesmo rancho. lá se formou a amizade que atravessou anos. as filhas se conheceram ainda bebês, nasceram na mesma maternidade e com uma pouca diferença de meses. cursaram o jardim da infância juntas, se separaram no primário, se reencontram novamente no colégio e depois cada uma seguiu sua vida. entraram na mesma faculdade. “conceituadíssima” – dizem os pais.

nos encontros do dce se reencontraram novamente. cada uma em a sua cadeira. uma humanas, já a outra, biológicas. militantes!, começaram a sair mais vezes juntas. e foi exatamente por causa da militância, que caíram no radar de um x9 milico. esse, além de dedurá-las pela causa política, também entregou o relacionamento. “unha e carne, capitão!” – delatou o milico. depois disso, a ditadura, que já assombrava o estado, chegou também mais forte em casa. 

“além de comunista, também é sapatona! a culpa é da sua, mulher! que mal dá conta da casa, não soube criá-la como mulher direita!” – bradava um. 

“juliana, como já havia te alertado, cuidado! nem todos compartilham das minhas ideias na caserna. seu nome está rodando em algumas reuniões. e até mesmo o pai da fernanda já está sabendo. creio que ela vai sofrer muito por causa disso.” – aconselhava o outro.

mas fernanda, mulher de posições fortes e beleza angelical, não desistiu. lutou e relutou com o pai. bancou o seu ideal. abraçou a bandeira, digo, as bandeiras. e de mãos dadas com as causas, juliana e liberdade, vem vencendo a batalha. o pai, já reformado, não a reconhece mais como filha. e ela, agora formada e com uma carreira brilhante, ainda sente a falta deles, pai e mãe. mas no braço da família, que junto com juliana formou, encontra o amor que lhe é negado na casa paterna. 

juliana, mulher de beleza descomunal e posições fortes, sensível a caminhada da amada, sempre ficou ao seu lado. passo a passo. conquista a conquista. com o apoio da família,  formou-se e foi morar com fernanda. em um pequeno quarto-sala no centro da cidade. agora, passado alguns anos, leva o filho todos os finais de semana para ver os avós. e juntos, fernanda, juliana, filho e avós, passeiam pelo parque da cidade esbanjando felicidade. 

fernanda, ainda acredita que um dia o pai turrão entenderá o que realmente é amar. que gêneros opostos não é o fator determinante numa relação feliz. e sim a vontade de amar, compartilhar e lutar. 


Desafio da Semana:

22/05 - Escrevendo certo por linhas tortas…

"dessa forma, ela abre as pernas e deixa a mostra a penugem ruiva que protege o prêmio. ele, louco e teso, não consegue deixar de reparar sua linda bonita… luta que caiu!“

– não é possível. sempre a mesma história. o mesmo ato. o mesmo martírio. não dá pra ser feliz! não dá! aposto que gonzaguinha estava com um maldito editor de textos, como esse, e resolveu compor. isso aqui é o inferno na terra. como ser criativo sendo reprimido o tempo todo? 

levantou-se da cadeira. tomou um ar. foi até a cozinha. serviu um café e voltou para a mesa.

– bom, como na vida, ao menos na minha, tudo é tentativa e erro… vamos ver se redigindo vai.

“dessa forma, ela abre as pernas e deixa a mostra a penugem ruiva que protege o prêmio. ele, louco e teso , não consegue deixar de reparar sua linda bonita… luta que caiu! 

– que lerda! tomar no sul! chega dessa ôla! que bonita cabeluda! pra mim já deu! paciência esgotou!

após mais um round contra o editor de textos, onde novamente perdeu por nocaute, fechou o maldito programa, abriu o caderninho e finalmente conseguiu escrever seu conto erótico sem ser censurado. 


Desafio da Semana:

15/05 - Acho que te amava, agora acho que te odeio