Archives For Refrão de bolero

 

eu disse

com voz firme

nunca  pensei em pensar e rever o dito, mesmo que depois seja desdito.

 

 _ me dá um gole por favor?

 _ novamente?

 _ sim! algum problema?

 _ acho…

 _ acha o que? 

 _ nada.

 _ ainda bem.

 

faltou tato.

voz suave.

um pouco mais de sensibilidade. era isso que você dizia? não era? fale!

 

 _ me perdoa por mais uma vez gritar com você?

 _ é seu jeito. 

 _ eu sei. mas você tem se anulado tanto por isso…

 _ é meu jeito.

 _ desse jeito, a gente não vai pra frente…

 _ é o jeito…

 

você disse.

eu lembro.

e agora, sentada neste campo louco da vida, choro. seguo a melodia da vitrola no canto do bar.

 

 _ eu vou.

 _ não vá!

 _ sinto muito. é que agora dói demais.

 _ eu mudo…

 _ já tentamos. nem durou três meses..

 _ tento outra vez.

 _ eu não.

 

e lá fomos nós.

perdidos em nossos caminhos.

desencontrando cada vez mais um pouco de nós mesmos. perdendo o doce da vida que havia quando minha boca se juntava a sua.

Foi no bar onde nos conhecemos que eu o vi pela última vez enquanto meus olhos procuravam qualquer coisa que não fossem os dele. Um erro tão vulgar que me condenou à bebedeira e à solidão de uma noite inteira. Ainda posso ouvir o bolero que cantavam no microfone chiado no exato momento em que ele entrou por aquela porta de vidro fumê. Eu gostava do jeito que ele me abraçava quando dançávamos bolero. Minha cara embriagada, aquela cara dissimulada. Como se apenas eu tivesse errado… “Eu te desculpo, mas você não precisa me prometer nada” foram as últimas palavras que ouvi da boca dele antes de sair por aí, antes de perder o meu rumo. Doeu e ainda dói. Eu chorei, eu bebi. Eu falei sem pensar, eu não sei mais o que pensar, eu fui sincera como não poderia ter sido. Minhas unhas roídas são testemunhas do arrependimento pelas palavras que eu falei sem pensar e da raiva por ele dizer que eu sempre faço a mesma coisa sendo que ele também sempre faz a mesma coisa. Eu o odeio, mas o amo.

No balcão do bar, vi quando me olhou e fingiu não ver. Eu fiz o mesmo, tudo bem. Eu não vou lhe fazer mais promessas.  Só quero esquecer o meu crime sem perdão enquanto bebo um vinho barato e o vejo sair pela mesma porta que eu entrei.

Nosso refrão de bolero chegou ao fim e meu vinho também. Nossos passos não mais se encontrarão em outra dança. E eu só lamento por não poder beber mais. 

Daniela Lusa

Falar demais também é falar de menos

amar demais nunca é amar de menos.

Tudo o que disse até hoje

é só um pouco do que queria fazer

tudo o que calei

é muito do que não devia dizer.

Se amei errado

não é culpa do coração

foi com a boca que falhei.

Você reclamou que eu não escrevia sobre nós, que eu não escrevo pra você, pediu, Um bilhete de amor qualquer, e eu falei, Nem pensar! Mas falei sem pensar. E depois pensei. E por isso agora estou aqui, sem querer escrever sobre nós, mas escrevendo mesmo assim.

Porque você pode achar que não, mas eu já escrevi sobre nós, sim. Tudo que eu escrevo desde que te conheci é sobre nós, porque tudo que escrevo é sobre mim, mesmo quando não parece que é sobre mim, principalmente quando não é obviamente sobre mim. E é assim que eu quero que seja,  que o texto seja um caminho torto e nebuloso onde não digo o que quero dizer, digo o que consigo dizer, ou mais, o que eu digo, sem saber, diz de mim.

Hoje, por exemplo, o que eu vou dizer é que tudo isso que falei até agora é besteira. Que na verdade eu não tenho a menor ideia do que estou dizendo. Que isso aqui são apenas letras e palavras, tentativas de fazer sentido fadadas ao fracasso, e que mesmo sabendo disso eu não consigo fazer de outro jeito. Que eu tento enfeitar, romantizar, disfarçar, mas o que o que eu quero mesmo é arrancar um pedaço do seu corpo pra que você entenda como eu me sinto sempre, incompleta, e eu não estou falando metaforicamente. E que quando você me beija eu tenho vontade de mastigar a sua língua e jogá-la fora junto com a minha pra que nós não possamos mais falar, e que quero que nós nos tornemos analfabetos pra que não possamos mais escrever. E que se eu for honesta preciso dizer que o que eu quero mesmo é entregar a nossa comunicação toda pros nossos corpos, porque quando meu corpo conversa com o seu é um dos raros momentos em que não sinto necessidade de falar, não sinto necessidade de escrever. Porque é só quando calamos e deixamos nossos corpos falarem que eu tenho certeza: não estou morta. 

Carina Destempero

Julieta

25 de outubro de 2016 - 3a.feira, Luis Mangi, Refrão de bolero

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Era minha primeira visita a Tijuca depois de muitos anos. Tinha chegado havia duas semanas, carregando comigo recordações de um bairro bucólico e arejado. Na mente, a imagem viva de praças arborizadas, o frescor de certos dias de primavera, o cheiro de terra molhada durante as chuvas fortes de verão.

Estava diante do único local na rua que havia resistido ao tempo. Um bar que conservava o mesmo nome, mas certamente com outro dono. Quando entrei para procurar um lugar para sentar, tive que me desviar de uma bancada grande fincada no centro do salão, cheio de saladas simples e de todo o tipo de comida. Algumas chegavam a brilhar sob a luz de tanta gordura. A boemia do passado tinha dado lugar a uma máquina de fazer obesos.

Fazia calor, muito para aquela época do ano. Mas para todos à minha volta, nada parecia incomodar, o que me fez pensar que minhas recordações, sem dúvida reais, apontavam para um passado irreconciliável com o presente. Pedi um chope. Estupidamente gelado, por favor! O único alívio possível. Enquanto o garçom se encaminhava para o balcão, peguei uma foto antiga na carteira, da época de escola. A foto que havia desencadeado todos os acontecimentos dos últimos meses. A foto que havia me trazido àquela rua na Tijuca depois de tanto tempo. Os anos haviam passado. Quando se chega a esse ponto, não saber o que fazer da vida é ruim, mas não querer fazer mais nada é muito pior. E tudo foi desmoronando, se desfazendo em tristeza, abandono, separação.

O prédio onde meus pais iniciaram a vida de casado não estava longe. Alguns metros do bar subindo a rua. Era possível avistá-lo de onde eu estava sentado. O prédio tinha passado por uma boa recauchutada, mas ainda carregava traços de construção antiga, do tempo quando ostentava, do alto de seus quatro andares, o posto de edifício mais alto da rua. A verdade mesmo é que naquele tempo só existia um outro edifício na rua, de três andares e sem elevador. Mas isso não impedia que a gente se sentisse importante.

Estudávamos num colégio pequeno a uma quadra da nossa casa, na mesma rua. Poucas turmas, do jardim de infância a quarta série. Foi lá que vi Julieta pela primeira vez. Ninguém naquela época tinha a menor ideia de quem era Shakespeare, e talvez tenha sido melhor assim. Julieta tinha acabado de chegar ao Rio. Alguma coisa relacionada com o trabalho do pai, nunca soube dos detalhes. A professora apresentou a nova aluna no primeiro dia de aula. Estávamos iniciando a quarta série. Engraçado eu não ter me lembrado do nome da professora, dos outros alunos da turma. Só Julieta ficou. Seu rosto de contornos tão delicados, a pele morena, os cabelos longos, bem escuros, que cobriam parte do seu tronco, e reluziam como pedras preciosas. Enquanto meu olhos eram sequestrados por aquela imagem, um burburinho se espalha pela sala, uma mistura de risos contidos e cochichos.

Nessa fase, meninos e meninas não se misturam. Meninos lutam com o conflito entre um corpo que começa a mudar e uma mente ainda ocupada com jogos infantis. Acho que fui exceção. Enquanto memorizava os detalhes do rosto dela, minha mente viajava por labirintos desconhecidos.

Foram alguns meses de olhares platônicos e frases melosas escritas na última folha do caderno, até ela começar a perceber, até começarmos a trocar alguns sorrisos tímidos, até eu ter coragem de chegar perto dela durante um recreio no pátio da escola, e puxar conversa da forma mais idiota possível. Depois de duas ou três semanas, minha timidez foi diminuindo, e já conseguíamos passar da quarta frase.

Num dia, na saída da escola, nossas mães nos esperavam no portão numa animada conversa. Sorrimos com o inusitado daquela situação. Passamos, então, a voltar juntos para casa quase todos os dias. Julieta morava na mesma rua, perto do bar. E essa convivência foi tornando a gente cada vez mais próximos. Acho que eu experimentei ali meus primeiros pensamentos mais sacanas, aquilo que um garoto de onze anos poderia pensar.

No final daquele ano, a escola faria uma grande festa de encerramento. Ensaiamos um teatrinho durante meses. Meu papel na peça era ridiculamente secundário, um figurante com uma ou duas falas. Mas isso não importava. Julieta fazia um dos papéis principais, e somente a possibilidade de vê-la por mais tempo durante os ensaios era suficiente para mim.

Naquele ano, meus pais resolveram viajar de férias mais cedo e não pude ir na festa de encerramento. Foram dias de muito choro, pedidos de por favor, e toda a forma de implorar que eu pude pensar naquela época. Nada feito. No dia marcado, subimos para as férias em Petrópolis e a peça foi encenada. Sem mim.

Os primeiros dias em Petrópolis foram de luto, um sentimento que ainda não sabia que existia. Depois de alguns dias, já estava participando mais das brincadeiras. Com o tempo, voltei a ser um menino normal, ocupado com as coisas que os meninos fazem nessa idade. No ano seguinte, fui estudar num outro colégio, mudamos para o Andaraí, e nunca mais viria Julieta.

Fiquei algum tempo repetindo aquelas palavras como um mantra, bebericando meu chope gelado, sentindo o suor secar na pele.  E assim, saltando de pensamento em pensamento, fiz o tempo passar e amansei um pouco minha ansiedade, que foi dando lugar a um encantamento difícil de experimentar depois da infância.

 

Luis Mangi

 

 

Num segundo tudo vai bem e noutro a vida escorre pelos dedos. Basta um instante pra gente se lembrar que a vida não nos dá garantia alguma. As alegrias estão irreversivelmente amarradas à sorte, tal como só há mar se tiver lua, ainda que a gente não veja a lua sempre que olha pro mar. Penso nisso enquanto falo com você, saboreando cada palavra na língua por três segundos antes de a expelir no ar, em direção aos seus ouvidos. Eis a minha tentativa de não estragar tudo entre nós. Preciso pensar, preciso ser coerente, preciso falar num tom de voz agradável. São tantas as coisas que preciso que, na imprecisão de tudo, encontro conforto no silêncio. No silêncio estou segura, não estou sendo desequilibrada como a minha mãe, nem louca como a sua ex e também não estou produzindo material pra você jogar na minha cara na próxima discussão. As palavras que saem da sua boca estão intoxicadas. Não param de produzir diferentes tipos de mal-estares-em-mim. A raiva queima em meu peito e é capturada pelas teias do silêncio, impregnando-se nas superfícies de dentro de mim mesma. Uma vez, duas, três, cento e trinta e quatro vezes acontecem isso. Lembro da voz do meu analista, dizendo que estou consentindo com o envenenamento que as suas palavras causam em mim, oferecendo lugar para elas morarem, sem sequer cobrar aluguel, condomínio ou IPTU. Penso que na última sessão saí decidida a não permitir que isso acontecesse mais, mas agora fico achando que ele só disse isso porque é homem, não sabe o quanto é dolorido amar sendo mulher. Começo a odiar um pouquinho meu analista e fico pensando se não é isso a tal da transferência, direcionar um afeto ao analista, quando não era bem pra ele que se devia dirigir o sentimento. Sentir um pouquinho de ódio, ainda que pela pessoa errada, faz com que eu me sinta um pouco melhor. Talvez a análise esteja funcionando. Uma palavra embalada em ira pula da minha boca, você grita, sinto que o chão treme embaixo dos meus pés, mas a palavra diz exatamente aquilo que eu quero dizer. Então, a repito num tom de voz mais alto, hipnotizada pela sensação de êxtase que tenho, conseqüência do caminho labiríntico que a palavra faz dentro do meu corpo para sair de mim, desviando das paredes de silêncio. Descubro que sua raiva não desintegra meu corpo. Paradoxalmente, assim você me ama mais. Num segundo tudo vai mal e noutro o mundo parece recuperar sua potência. 

 

Ana Suy