Archives For Por muitas razões eu te quero

Faz vinte minutos que estou olhando para um arquivo em branco no monitor enquanto repouso os dedos sobre o teclado mudo e tento escrever sobre as razões do meu tanto te querer. É difícil encontrar palavras que eu nunca tenha usado para falar sobre você, então me perdoe se eu soar repetitiva — mas é que você se repete o tempo todo em mim.

Trinta e dois minutos, quatro linhas.

Penso em escrever que te quero porque do seu lado eu sinto que encontrei o meu lugar, parece que minha alma sempre tão perdida volta para casa toda vez que estou contigo. Eu poderia dizer que te quero porque quando você segura a minha mão eu sinto um arrepio percorrer o meu corpo e eu estremeço toda, parece que você entra pelos meus poros e ocupa cada espaço vazio que tenho em mim. Eu gosto dessa sensação que me deixa nervosa e me acalma ao mesmo tempo, você é o duelo entre o meu caos e a minha paz.

Quarenta minutos, dois parágrafos.

Ou eu poderia dizer que te quero porque quando você me abraça eu sinto toda a proteção de que alguém precisa para viver em paz, por isso eu pedi para morar no seu abraço — porque não é de hoje que você vive em mim. Quem sabe eu poderia dizer que te quero porque o jeito como você toca minha pele me faz sentir viva — e pela primeira vez em muito tempo eu estou gostando de viver.

Cinquenta e quatro minutos, meio texto.

Paro de escrever neste instante e olho de novo a foto em que você está sorrindo, parece-me tão feliz, e sorrio porque a sua felicidade me faz feliz também. Suspiro e volto a escrever, ou tento, e continuo pensando no que dizer sobre as razões do meu tanto te querer.

Sessenta minutos, preciso de um desfecho.

Eu acho que te quero porque sinto minha paz restabelecida toda vez que te vejo e sei que poderia passar um dia inteiro apenas te olhando, quase sem respirar para não quebrar o nosso silêncio — porque eu gosto do jeito como nossos olhos conversam. Ou talvez eu te queira porque sei que só ao seu lado vou ser feliz, e não me pergunte como tenho tanta certeza assim, eu apenas sei que nunca tive tanta certeza na minha vida.

Uma hora e dez minutos, o tempo passa e eu não canso de pensar em você.

A verdade é que eu poderia escrever páginas e páginas listando as razões do meu tanto te querer, mas penso que me faltariam palavras para explicar o que nem eu consigo entender.

Não há como medir o quanto te quero, não há como descrever por que eu te quero, não há como explicar que na verdade eu não te quero: eu preciso de você.

E ponto final. 

Daniela Lusa

– Pode ir se preparando, Pedrão. Adivinha quem está chegando e daquele jeito?

Mal dobrou a esquina e Alfredo já havia anunciado sua presença. Maldito Alfredo – Pensou com seus botões.  Caminhava a passos curtos rompendo a descida da calçada rua Cristal. Entre a estação do metrô e a APAE, estava lá seu refúgio em dias tristes como o de hoje. Um bar à meia porta, um balcão de cimento, uma estufa recheada de ovos, torresmo e maçã de peito. Uma mesa antiga onde a logo da cervejaria patrocinadora já havia se perdido nos fundos dos lagoinhas. Quatro cadeiras da mesma cor da mesa.  Um aparelho de som e quatro bancos altos de fronte ao balcão.

Antes de entrar, parou, olhou novamente para o céu, inspirou longamente. Expirou logo em seguida. Transpôs a porta. Ajeitou-se no primeiro banco à esquerda do balcão.

– Salve, Pedrão!. Tem uma cerveja boa aí ou só tem aquele mijo de égua do caralho?.

– Que isso rapaz?! Aqui só tem coisa boa! Respondeu Pedro já destampando uma garrafa, colocando-a sob o balcão juntamente com um copo.

– Rapaz, seu aparelho tá funcionando? Ainda tem aquele disco que trouxe da última vez?

– Claro que está funcionando! E esboçando um sorriso sarcástico, perguntou: quantas vezes vou ter que escutar aquele maldito?!

Sem dizer nada, fez o sinal que seriam várias vezes, pois a noite seria longa. De uma golada só, acabou com o primeiro copo. O segundo foi aos poucos. O terceiro mais devagar ainda.

Enquanto isso, o som enchia o bar, da mesma forma que as lágrimas desfilavam em seu rosto.  No quarto copo, finalizou a garrafa e pediu imediatamente outra.

– Cara, você tem de se abrir com ela. Intrometeu Alfredo, entre seus pensamentos e sofrimento – Não adianta você vir aqui e se afogar nessa música e nesses copos. Tem de parar, respirar e finalmente colocar tudo isso pra fora. Mostrar pra ela o tanto que ela é importante. Que apesar do seu jeito, aliás, do seu sem jeito em algumas questões é ela que você quer. E pelo tanto que conversaram, nas últimas vezes, é ela que você esperava. Que mesmo sendo grosso, às vezes, explosivo e ainda não ter uma inteligência emocional tão desenvolvida, as coisas estão caminhando. Você está tentando. E que é assim. O mundo perfeito não existe. O ser perfeito não existe, ao menos nesse plano. E que aqui, as pessoas evoluem. E que mudança não existe, mas sim melhoras. Além disso, você tem que mostrar porque ela é tão importante pra você.

Ele levanta a cabeça. Olha nos olhos de Alfredo.

– Eu sei, meu velho. Sei de tudo isso que você está falando. Cara, sem ela é tudo tão difícil. Uma coisa muito foda. É com ela que sonho. É nela que confio. É naqueles braços que me abraço. É naquele sorriso que me encontro. Através de seus olhos que vejo um mundo melhor, mesmo tendo tantos problemas me circulando. Nela faço meu porto, meu porto seguro. Não consigo pensar um dia sem que ela esteja ao meu lado. Sei dos meus problemas, das minhas falhas. Mas sei que estou tentando melhorar, um pouco mais a cada dia. Um passo por vez. Mas, infeliz ou felizmente, numa relação um só não é o todo, somos dois, e ambos temos que concordar pra seguir em frente.

– E você já disse isso pra ela?

– Não. Não disse.

– E por quê? – Alfredo dá dois tapas no ombro dele. Vai até a porta do botequim. Sorri olhando para trás. E diz: pense meu amigo!, pense e se abra.

Ele olha sem graça para Alfredo. E entre um sorriso amarelo e mais um golo, pensa e pensa mais. Enquanto a vitrola ainda insiste em tocar: Amor, Amor…

 

Sei lá, ué, eu te amo porque te amo, ela respondeu com uma breve pausa na pintura das unhas.

Se você não consegue dizer o porquê, é por não me amar de verdade, ele retrucou sem deixar de passar de um canal para o outro com o controle remoto.

É justamente o contrário, ela pôs o esmalte de lado, Por não saber explicar é que sei que é Amor™.

Isso é retórica sem fundamento, e o controle abandonado deixando a reprise de uma partida de futebol na tela, Eu preciso de motivos e razões, provas e promessas, eu, por exemplo, sei que te amo porque passaria a vida inteira olhando você pentear o cabelo, porque quando você me arranha as costas, é minha alma que se arrepia, porque quando eu saio antes de você pro trabalho, você me olha de um jeito que dá vontade de pedir demissão e passar o resto dos meus dias te olhando me amar.

Não sei se acho lindo que você use palavras e conceitos românticos para tentar falar daquilo que é impossível dizer, ou se acho péssimo que você se apoie em ideais inalcançáveis por não suportar a falta de certezas, ela suspirou com os braços cruzados de quem tenta encerrar o assunto.

Anda, me diz, por que você me ama?, e o tom de desafio que ele sabia ser irresistível pra ela.

Tá bem, você quer saber?, caindo na armadilha como ele previra, Eu te amo porque não sei, eu te amo porque não tenho, eu te amo porque não, eu te amo porque quando a gente se beija eu quero morder seus lábios, arrancar sua língua e mastigar pedacinho por pedacinho, eu te amo porque quando olho você dormindo eu penso em abrir seu peito, arrancar seu coração, e colocá-lo dentro do meu peito, e porque quero roubar seus olhos pra tentar ver o mundo do mesmo jeito que você, eu te amo porque não tenho a menor ideia se vou te amar amanhã, te amo porque você sabe que eu faria qualquer absurdo que você me pedisse, e ainda assim você não pede, mas quando eu preciso que você me dê uma ordem, apenas porque eu não conseguiria fazer algo sozinha, só então, e só por isso, você abusa da autoridade que te concedi, eu te amo porque poderia passar o resto do dia, da semana, do Para Sempre®, enumerando motivos de te amar, e nem assim chegaria perto do real motivo, porque todas as razões podem ser modificadas, porque todas essas frases podem ser falsificadas, e porque provas de amor são provas de tudo, menos de Amor™, e calou-se numa expressão de seriedade e expectativa, até que,

Você pode repetir?, e o olhar-de-cachorrinho-abandonado que era mais um dos motivos de Amor™, me distraí com o golaço do Zico. 

Carina Destempero

Amar é tão difícil, complexo, dolorido. Amar é uma dor doída quando não se é correspondido e uma dor doida quando se é correspondido. É tão difícil isso, você não acha?

Amar é angustiante. Não controlar aquilo que sinto , sentir coisas que me são irracionais, fazer aquilo que eu sempre soube que não faria e então perceber que não sei coisa alguma sobre mim, é horrível isso, não sei como as pessoas dizem que amar é bom. É como ter um terceiro braço ou uma segunda cabeça do qual não se tem controle. É como ter outra pessoa em você, que não você mesmo. É o que de pior já me aconteceu.

Amar é leve, pesado é resistir ao amor. Difícil é a neurose, o amor é fácil. Complexo é querer ser amado do mesmo jeito que se ama, amar é fácil. Angustiante é querer eliminar aquilo que é vivo em nós. Doido é incorporar um pedaço do outro e modificar a si mesmo.

Ana Suy