Archives For Mãe

por pouco,
por nada,
por muita coisa,
às vezes, por coisa nenhuma.
abro os olhos,
e ainda me vejo
perdido, 
na dor de tantas gerações.
 
não é por você,
não é por mim,
não é nem por eles, 
às vezes por ninguém mesmo.
fecho a cara,
saio puto, 
perdido,
na dor de tantas gerações.
 
é por mim!
é por mim!
é por mim!
que perdido em tanta dor,
de vidas vividas sem amor,
rogo ainda um dia conseguir dizer…
mãe, meu amor.

Minhas mãos ainda se encaixam nas dela.

Pena que não caibo mais no seu colo.

Seu jeito se permeia em mim.

Queria entrar no seu abraço.

E viver pra sempre assim.

 

Peço desculpas aos leitores que se iludiram com o título de meu texto buscando, talvez, um modo de também dizerem o que não conseguem. Eu não consegui escrever mais do que cinco linhas. Não porque eu não tenha o que escrever ou não queira, muito pelo contrário: eu simplesmente não consigo. É começar a pensar na minha mãe que meus olhos transbordam em lágrimas que não são de tristeza tampouco de alegria. Acho que são lágrimas de gratidão, de respeito, de admiração, de pequenez diante de toda a grandeza daquela mulher que me deu a vida. E, como se isso já não bastasse, ela ainda dedicou toda a sua vida a mim e a meus irmãos. Toda. A. Sua. Vida. Toda. Ela não viveu por si, vive por nós. Eu sei que desde que o meu irmão, o André, faleceu, ela se tornou mais frágil e, ao mesmo tempo, incrivelmente mais forte. Meu Deus. Ela continua serena, mesmo vivendo um tormento interno. Meu Deus. Que força tem aquela mulher. Minha voz se cala quando a ouço, minha vida se acalma quando ela me fala. É a voz que eu sempre vou querer ouvir.

Não disse? Eu não consigo dizer. E estou aqui com os olhos marejados de tanto querer dizer o que palavra alguma seria capaz de expressar. 

Daniela Lusa

Apesar da minha mãe ser uma pessoa mais calada, a gente tinha uma boa relação quando eu era pequeno. Por ser assim, quieta, era como se ela conversasse pra dentro, remoendo sozinha, as histórias difíceis que passou na infância. Talvez, essa tenha sido uma de nossas barreiras de comunicação na época. Uma barreira que resistiu a tudo. Menos a distância.

O dia que saí de casa pra morar sozinho foi como se eu tivesse nascido de novo. E, ser filho duas vezes me fez amar dobrado essa mulher. Foi incrível.

Eu sei que ter uma vida difícil não é exclusividade da minha mãe. Todas as mães têm uma vida difícil. Parece que alguém fica testando elas o tempo todo pra saber se elas vão tá prontas pra cuidar da gente um dia. E, por mais tarde que você chegue em casa, por mais doente que você fique, por mais sujeira que você faça, por mais problemas que você tenha, ela vai ser mãe.

Hoje, morando fora de casa, percebo quanto tempo a gente perdeu deixando de fazer um monte de coisas. Quantos colos, quantas conversas e quantos cafunés a mais não podiam tá nessa conta. Ter por perto quem a gente ama, faz a gente diluir o carinho e os abraços na rotina. A facilidade e o acesso são péssimos amigos da importância. Hoje, quando volto pra fazer visita é como se eu tivesse pagando um pouco dessa dívida. E, toda vez que eu vou embora, é um novo parto. Como é bom nascer de novo de você.

Apropriado. Correto. Pertinente. A vida inteira ouviu essas palavras para descrevê-lo e se congratulou por isso. Nasceu na comunidade, mas desde que se entendia por gente planejava em sair dali. Muito inteligente e disciplinado, todos apostavam nele pra "sair daquele buraco" e ter a vida que outros apenas sonhavam. E ele conseguiu. Estudou, se formou, namorou, noivou e casou-se com uma mulher igualmente correta e apropriada, foi um funcionário exemplar, recebeu tapinhas nas costas e aumentos de salário, nunca gastou demais, fez poupança, alimentou-se adequadamente, só alimentos funcionais, com muitas fibras e zero porcento de gordura trans, já tinha tudo planejado até depois da aposentadoria, quando, cansado, na companhia da família, morreria num sono tranquilo, a morte dos justos.
 
Até que um dia a vida, que ele sempre conseguira evitar, se impôs impiedosa.
 
Nunca se viu como um homem infeliz, pelo contrário. Todas as metas autoimpostas foram conquistadas, então sempre se achara uma pessoa realizada – e para ele realização era sinônimo de felicidade. Até aquele dia vinte e cinco de maio de dois mil e dezesseis. A frase do médico escrita à navalha em sua mente: Você só tem mais seis meses de vida, sinto muito.
 
Todos que o conheciam temeram por sua saúde física e mental, e ele próprio se preocupou com isso. Mas, uma semana depois, decisão tomada, se sentia mais feliz do que nunca. Feliz. Essa palavra certamente nunca foi usada para descrevê-lo. Nem ele sabia bem o que queria dizer, mas sabia senti-la.
 
Agora, três meses depois, acordava entre excitado e apavorado no barraco que alugara no dia seguinte ao diagnóstico. Durante a primeira semana achou que morreria antes do tempo pelo puro desespero de morar um lugar tão pequeno e desordenado, mas agora sentia-se em casa sentado à mesa de plástico que comrpou do boteco em frente. A mulher, ou melhor, ex-mulher, ficou tão pálida ao ver a bagunça quando veio visitá-lo na semana anterior que ele achou que ela fosse ter um enfarte, e pensou que seria irônico se, depois de tudo, ela morresse primeiro.
 
Olhando pelo buraco na parede da sala que fazia as vezes de janela, toda sua infância se passava diante dos seus olhos, e daí veio a ideia que deu sentido à loucura de, nos seus últimos meses de vida, retornar ao lugar de onde ele acreditava ter escapado há tantos anos. Resolveu usar o tempo que lhe restava para registrar sua vida, uma tentativa de deixar sua marca no mundo. Começou organizando dezenas de cadernos acumulados ao longo de anos onde escrevera sonhos noturnos e poemas adolescentes. Catalogou-os por ordem cronológica e alfabética, mas aquilo não parecia suficiente. Começou a escrever novas categorias como Metas Alcançadas, Conquistas de Trabalho e Histórias de Família. Mas estas logo se esgotaram, descobriu que não tinha tantas histórias para contar. E foi assim que nasceu a pilha de cadernos que agora ocupa a maior parte do apartamento, identificada com um post-it onde se lê: A vida que eu não vivi. 
 
Carina Destempero

futuro do presente

1 de novembro de 2016 - 3a.feira, Luis Mangi, Mãe

to-be-titled

 

Eu amarei
Tu amarás
Nós seremos felizes
Eles não nos matarão

***

Tiroteiro na Rocinha deixa policial do Bope e quatro suspeitos feridos no Rio

29/03/2015 – 13h53

Após intensa troca de tiros entre traficantes e policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais), o sargento da corporação Márcio Clay acabou baleado na coxa e no braço na madrugada deste domingo (29), na favela da Rocinha (zona sul do Rio), palco de recentes confrontos. Quatro suspeitos de participar do tiroteio também foram alvejados. Dois deles passaram por atendimento nos hospitais municipais Lourenço Jorge (Barra da Tijuca) e Miguel Couto (Gávea) e, depois disso, foram presos. Mesmo feridos, os outros dois escaparam.


***

A Rocinha amanheceu indiferente aos tiroteios de sempre. A comunidade está em festa. José Carlos da Silva, o Seu Zeca, vai se aposentar. Depois de vários anos de trabalho e dedicação, Seu Zeca decidiu, enfim, largar o tráfico e curtir a vida. Não ocupava cargo importante, mas tinha o respeito de todos. Sujeito simples, muito querido. Vai faltar lugar na quadra da escola para receber tanta gente. Música alta, o povo dançando e cantando, churrasco e cerveja gelada. Seus filhos e netos, alguns já estão lá, outros vão chegar da rodoviária. Poucos amigos de infância. Vários clientes já estão bebendo (uns cheirando), aquele jogador de futebol famoso, o grupo de pagode do morro, até o chefe da boca veio prestigiar (ninguém fala, mas todos sabem que ele está bancando os comes e bebes). Ao lado, sua eterna Rosângela, parceira de vida desde o começo, quando ainda brincavam de correr nos becos da favela sem a polícia atrás. Não fez riqueza, mas tem o suficiente para uma vida tranquila no barraco, uma casa de praia alugada em Araruama no verão, quem sabe uma viagem para o Nordeste, conhecer a Teresina de que tanto seus pais falavam. Seu Zeca não cabe de tão feliz.

***

Zeca escondido no beco, sem chinelo, os ossos rasgando a pele de tanta pedra, olhando para o céu por uma fresta.

 

Luis Mangi

Sorry

31 de outubro de 2016 - 2a.feira, Ana Suy, Mãe

 

Tão linda, saiu de dentro de mim. Uma versão minha muito melhor do que eu mesma. Mais jovem, mais bela, mais inteligente, mais amada. O meu melhor pedaço não está em mim, pensei sem perceber, logo que você se encaixou nos meus braços. Sempre duvidei desse mito do instinto materno, da mãe que se sente absolutamente e eternamente completa depois de ter um filho, dessa saída freudiana de que se compensa a ausência do falo no corpo com um filho. Assim que você nasceu, pá! senti que as minhas desconfianças faziam sentido. Mas é claro que titubeei antes. Não teve como eu não me sentir completa ao testemunhar a  exímia beleza dos seus olhos brilhando ao olhar o mundo pela primeira vez. Encontrei um pedaço da felicidade eterna sentindo o toque da sua pele perfeita e ensaguentada, completando a minha existência ao tocar a minha pele lambuzada de suor. Toda a dor, toda a renúncia, todo o sofrimento de uma gestação cheia de inseguranças e de solidão, tudo foi recompensando em meio centésimo de segundo do seu nascimento. Ouvir o seu primeiro choro fez valer a pena as minhas últimas dezenove ou vinte e nove ou duzentas vidas. Sério. Mas o problema é que a vida não para nas imagens de felicidade que a memória grava. A vida continua, sem dó da gente, sem nos poupar, sem eufemismos. Em certo momento me caiu a ficha. Você era tão melhor do que eu…e era por isso o meu amor infinito por você. Mas você era tão, mas tão, mas tão melhor do que eu, que não tive como não sentir uma enorme empatia com todas as madrastas dos filmes da Disney. Espelho, espelho meu, existe alguém  mais bela do que eu? Claro, minha querida filha, você é absolutamente superior a mim. Seu pai logo percebeu isso, e rapidamente, não olhava mais para mim, só sabia babar em você. Como poderia, eu, não me enciumar, diante do amor sem fim, do seu pai sobre você? Ao mesmo tempo, como poderia eu, ter a audácia de me enciumar,  diante do embasbacamento do seu pai  sobre você? E assim, uma enxurrada de culpa banhava o meu corpo todos os dias. Uma vez, duas, quarenta e oito, mil e vinte vezes por dia. Como eu ousava invejar a minha própria filha? As coisas pioraram quando você chegou na adolescência e passamos a compartilhar as nossas roupas, calçados e acessórios – tudo do mesmo tamanho. Um dia eu soube que você arranhava os antebraços com o seu compasso cor-de-rosa, que eu mesma  comprei. Pensei que enolouqueceria de dor. Entendia que todos os sentimentos ruins que me habitaram em relação a você, se localizavam nos arranhões que você se causava. Eu: culpada, culpada, culpada. Assim, eu pedia desculpas a você, que não entendia a minha angústia, e pior: você se sentia culpada por perceber a minha culpa. Eu me sentia realizada por seus feitos e destroçada por suas dificuldades. Até que um dia…. Nada aconteceu, mas eu desejei ardentemente que acontece, e assim continuo desejando. Por isso, na impossibilidade de modificar os afetos em mim, decidi modificar as palavras. Desde então, conjugo os verbos no passado, em busca de encontrar alguma doçura no meu modo de me relacionar comigo mesma, para que alguma doçura respingue em você. E o texto acabou aqui, vocês (também) me desculpem.