Archives For Julia Nogueira

Obviamente o cabelo amanheceu um horror.

Passei pomada, piorou.

Lavei de novo.

O filho da puta que inventou a etiqueta,

devia ter cabeleireiro em casa.

Um chapéu resolveria minha vida.

Pedi ajuda com minha roupa

e Catarina resolveu tudo.

Uma coisa a menos.

Lembrei daquela gente toda que vai assistir,

a dor de barriga voltou.

No tempo que levei cagando

repassei minha falas.

Fazia tempo que eu não via gente.

Só Catarina mesmo,

e o Márcio do delivery.

Essa convenção me apavorava.

Sei que o mérito era meu.

Eu tinha que ir.

Mas me apavorava.

No Uber comi todas as balas.

Esperando que o microfone

não captasse o barulho da minha barriga.

Saindo do carro, um trator.

Meus óculos voaram.

Estavam destruídos.

A desgraçada nem parou pra olhar.

Se parou, eu também não vi.

Não tava vendo porra nenhuma.

Maior que meus seis graus de miopia,

só o meu desespero.

No saguão me receberam.

Resolvi sorrir, já que não reconhecia ninguém.

Uma mulher vinha na minha direção.

Dois passos antes dela chegar,

não reconheci Catarina.

Ela riu com a situação.

 

– Você não tá enxergando nada?

– Fala baixo, porra. Ninguém sabe.

 

Me levaram para frente do palco.

Ouvi meu nome.

Salva de palmas.

As pernas quase não caminharam.

Subi lentamente e me virei com pavor.

A plateia era turva.

Um Monet no fim da vida.

Poucas pinceladas eram no vermelho.

Sorri pra mais próxima,

torcendo que fosse Catarina.

Ninguém naquela pintura parecia me olhar.

Me senti bem.

Quando acabei,

a plateia embaçada se levantou.

As palmas de satisfação

recompensaram meu nervosismo inicial.

Meus olhos molhados,

fizeram da visão uma aquarela.


Desafio da Semana:

19/06 - Eu uso óculos

O desafio literário da semana é de Julia Nogueira:

Uma pessoa com 6 graus de miopia está em cima da hora para um compromisso muito importante, e no caminho o óculos de grau quebra.

 


Textos publicados para este desafio:

- QUANDO VOCÊ TEM 13 ANOS
21/06 - O que você faz?
22/06 - A pequena história de uma grande menina
23/06 - Visão aquarela
24/06 - cirurgia

O jantar era na casa dele. Expliquei que era alérgica a ovo. Deveria ter falado que não tenho uma perna? Os últimos homens passaram rápido. Com um toque já não sabiam mais lidar. Contar tem sido terminar relacionamentos que mal começaram, resolvi esperar. Nos dois encontros que tivemos, a rapidez dos pensamentos dele parecia combinar com o tempo. Que não esperou em nem um momento, e já foi me deixando com frio na barriga e sorriso bobo. Escolhi uma lingerie prata que combinava com a prótese nova. Eu gostava, tinha um quê futurístico. Minhas mãos estavam geladas, mas meu coração quente. Eu estava pronta.

***

Nunca tinha visto um sorriso mais bonito.

Ela sorri com o corpo todo.

E eu sorrio quase sem ação

porque ela toda, sorri na minha direção.

As mãos leves vêm até a boca

– que por sinal faz um encaixe perfeito na minha –

e tentam conter uma energia que não se refreia.

Os cabelos,

como ondas de alegria

emolduram seu rosto.

Que possui um imã,

puxa o meu pra perto e me ilumina de tabela.

De frente pra ela o resto congela.

 

Chamei pra jantar em casa,

contei que era pequena.

Será que devia ter falado que não sei cozinhar?

Comprei tudo congelado.

Sem ovo, ela é alérgica.

Escondi bem as embalagens

e torci pra ter gosto de comida caseira.

 

A campainha acelerou meu coração.

Prendi a respiração.

Ela ali na soleira da porta,

parecia holografia.

Uma que minha mente tinha criado.

Nossos olhos se mergulharam

e cada um ganhou mais um pouco.

Ela de mim e eu dela.

 

Entrei na frente

arrumando as pequenas bagunças no caminho.

Escondendo o que achava que ela pudesse não gostar.

Esquecendo que ela gostava era de mim.

 

Sua pele preenchia minhas mãos.

Nossas roupas o chão.

Ela me olhou nos olhos e me disse que não tinha uma perna.

Fui obrigado a contar que a comida era congelada.

Ela riu, acho que não ligou.

Encostei na sua coxa estática.

Perguntei se ela era humana mesmo,

ou se tinha sido toda feita pra mim.

Ela disse que era.

E que eu era todo feito pra ela.


Desafio da Semana:

12/06 - Limites

Lembro de quando eu não tinha tanta importância. Sempre fui lindo, flores botânicas e textura macia, mas eu sentia que era qualquer um. Pensava em como poderia me destacar naquela prateleira tão cheia, de muitos de mim. Cheguei a procurar defeitos nos outros. Um plástico meio aberto, uma estampa tortinha. Sei que não é bacana, mas eu só queria ser especial, me inovar. Acumular histórias, e não poeira, sabe?!

No dia que fui escolhido, ela me estendeu sorrindo. Deslizou suas mãos por mim num carinho suave e deitou me abraçando gostoso. Depois jogou minhas pontas por cima dela e viramos um sanduíche de aconchego. Mais tarde quando ele entrou no quarto, quase fiquei com ciúmes. Sentou em cima de mim meio sem me perceber. Mas ela veio com jeitinho e perguntou se ele não tinha visto o lençol novo. Ouvi ele me elogiar e ela perguntar se podiam testar.

Descobri ali, que meu papel era envolver. E a parte que eu mais gosto, é que envolvo amor. Ela estava embaixo de mim e pra ficar mais perto, ele também entrou. Em mim, nela, e os dois no prazer. Eu, meio atrapalhando meio deixando mais gostoso, pensava no quão devia ser bom o amor.

Eu não sei o que você anda fazendo da sua vida, mas acho que cê devia tentar. Se envolver em alguma coisa, se envolver com alguém. Aproveita que além de observar, você pode sentir. E olha, pelo que eu tô vendo aqui, não deve ter nada melhor do que amar.


Desafio da Semana:

5/06 - Objetos

Também tô com saudade, mãe. Eu liguei faz uns três dias, não reclama. Tá, me explica que eu conto as novidades. Isso, chantagem. Fala devagar que não entendi nada. Coloca o ovo no copo pra que? Não é na frigideira? Tá bom, mãe, vou fazer assim. Como quebra, tem macete? Hum, na raça, tá bom. Ih, mãe, minha raça devia estar em extinção, destrui o ovo todo. Tá bom, tô quebrando outro. Agora vai, olha a mão tremendo, tchantchantchantchan: Voilá! Deu certo, mãe. Sou muito profissional de ovo mesmo, minha nossa. Tá, sal, pronto. Ih, não, esqueci. Vou ligar o fogo agora. Põe quanto de óleo? Mãe do céu, cê precisa aprender medidas, “um tanto que faça o ovo fritar” não é medida. Coloquei aqui, seja o que deus quiser. Como eu sei quando tá quente? Ai, mãe, puta que paril, o óleo me atacou aqui. Pelo amor, que violência. Desisto, isso aqui é um perigo. Pra mim já tava bom ovo mexido, nunca dá errado. Ihh vixi, não tem mais ovo. Esse vai ter que dar certo, mãe. Me ajuda que não tenho outra coisa pra comer. Eu sei, vou fazer mercado amanhã. Não sei ainda o que vou comprar, no mercado eu olho né. Lista? Pode ser. Tá bom, mãe, faço uma lista, fica tranquila. Agora me fala o que fazer que tá arriscado esse fogão. Mãe, não tem como. Não dá pra colocar o ovo! Devagar é impossível, tô me queimando. Beleza, enrolei o pano de prato na mão. Joguei o ovo! Ahhh não, a parte amarela estourou. Aff mãe, credo, não fala assim comigo. Num sei fazer nada, mas a culpa é sua né?! Ficava fazendo tudo sozinha e não me ensinou nem a fritar ovo. Lógico que eu ia sair de casa. Cê achou o que? Não te abandonei, mãe, não começa. Para de ser chata. Não, mãe, foi modo de dizer, eu te amo. Não chora mãe, desculpa. Não sou ingrata, calma, tá bom, não falo “calma”. Mãe, não, não desliga, o pai não sabe fazer ov…

 


Desafio da Semana:

29/05 - Conversando e fritando um ovo

Ela me acorda.

Beijo, cheiro,

cabelo se mistura com cabelo.

Tá com a corda toda.

 

Faz charme me olhando nos olhos,

carinha de que não sabe muito.

Mas suas mãos procurando meu gemido

não disfarçam tão bem, já decoraram o caminho.

 

Ela se esfrega em mim

se fazendo de despertador.

Toda toda.

Santinha do pau oco.

 

Acordar assim é quase como não acordar.

É sonhar com coisa boa,

mas na hora de experimentar cê não acorda,

cê aproveita.

 

Olho praquela boquinha sorrindo

me chamando pro café.

Eu quase já não ouço,

minha mente é desejo.

 

Ajoelhada com a bunda nos pés,

ela me apressa.

Dando pulinhos animados de domingo,

seu peitinho balança embaixo da camiseta larga.

 

Lambo sua boca com tesão.

Ela agarra nas minhas costas

e nós duas sabemos,

o café pra variar, vai ter que esperar.


Desafio da Semana:

22/05 - Escrevendo certo por linhas tortas…