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Não me deixe saber de você. Faça o que fizer, haja o que houver, pense o que quiser: mas não me deixe saber de você. Eu não quero saber dos seus passos nem sobre os olhos em que você se perde quando os encontra pela rua. Eu não quero pensar nas mãos que tocam as suas ou nos lábios que agora se colam nos seus. Não me deixe saber sobre as noites que você passa em claro com sabe-se-lá-quem nem dos dias em que os seus pensamentos voam ao encontro de uma outra mulher.


Não me deixe saber que você não consegue se ver ao meu lado, seria cruel demais. Mas eu sei.


Eu queria lhe dizer “adeus” e me despedir definitivamente de tudo o que nos pertenceu. Quem me dera poder me deixar livre de você sem que isso me causasse danos que nem os mais longos anos poderiam restaurar.


Eu te deixei ir, mas não completamente. É por isso que eu lhe peço: não me deixe mais saber de ti (mesmo que eu já saiba de tudo).

Daniela Lusa

 

Não importava onde, não importava quando, não importava com quem mais: se fosse com ele, ela só queria estar. Esperava ansiosamente por uma ligação no meio da noite para ouvi-lo dizer que a amava, que estava com saudade, que estava “indo te ver”. Ou uma mensagem que fosse, qualquer palavra que viesse dele, qualquer ponto de interrogação que questionasse sem querer questionar “por onde anda você?”. Uma mensagem de amor, talvez, seria esperar demais? Talvez fosse, para ele.

Mas a mensagem nunca foi enviada, ele nunca chegou. E ela não pôde estar.

Daniela Lusa

Não sei quais eram as vontades de Eduardo naquela manhã de sexta-feira. Ele abriu os olhos, viu que eram quase sete e não quis se levantar. Mesmo assim, levantou. “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou”, pensou em suas divagações matinais que antecediam o café. Talvez não, Eduardo, porque nunca sabemos o que o futuro nos reserva. Talvez ele não chegasse a ver uma outra estação, quem sabe teria tempo suficiente para aprender como é que se diz “eu te amo”. Não somos donos do tempo, meu caro Eduardo, mas podemos nos encaixar entre o vai e vem da vida num ritmo que é só nosso. Temos nosso próprio tempo, Eduardo. “Mais do mesmo”, pensou em sua rotina enquanto tomava um café preto com três colheres de açúcar, “Ainda é cedo, o dia pode esperar”. Há tempos não se sentia como naquela manhã nublada que anunciava a tempestade. E tomou suas xícaras de café apreciando a perfeição do dia que seria um tédio (com um T bem grande pra você). 

Já a Mônica eu conhecia bem e sei que seu dia começava cedo, antes das seis. Naquela sexta-feira não foi diferente, eu sei. Ela já tinha se desfeito em mil pedaços, quase sem querer, e se refeito do nada tantas vezes que já havia aprendido a lidar bem com as neuroses que habitavam sua mente. Será, Mônica? Leu de novo as mensagens trocadas com ele: “Espero que esteja esperando por mim”, “Estarei aqui quando você voltar”. A música ambiente adocicava o sabor da promessa que ele lhe fizera. Faltava pouco para vê-lo, uma sexta inteira, mas parecia que teria de esperar todas as quatro estações. De repente, um trovão: o metal contra as nuvens prenunciava a tempestade que certamente teria a cor dos olhos castanhos dele, tão devastadora quanto. E Mônica permanecia sereníssima em meio ao seu caos.

Ao fim do dia, os dois se abraçaram forte enquanto Mônica dizia mais uma vez a Eduardo: “Já estamos distantes de tudo…”. Eduardo e Mônica eram nada parecidos, mas combinavam de um jeito que era só deles.

 

Tudo bem, meu bem. Eu vou relevar, eu vou esquecer tudo o que aconteceu. Já passou. E sei que não vai mais acontecer. Tudo bem. O problema sou eu, como você disse, você tem razão.

Eu vou servir o café da manhã pra você. Vou temperar tudo com muito amor e enfeitar a mesa com uma rosa. Vou deixar tudo bem bonito, como você merece. A mesa, a casa, tudo, preciso me redimir. Você disse que eu preciso mudar. Tudo bem. Vou deixar tudo arrumado, vou servir o seu café.

Para você tomar sozinho enquanto lê minhas palavas de adeus pra nunca mais.

Um beijo de café da manhã. Bom apetite.

 

Eram cinco horas de uma tarde cinza de agosto quando ela decidiu organizar as gavetas de sua escrivaninha. Havia muitas coisas a serem jogadas fora.  Abriu a janela do quarto e suspirou ao lembrar dos dias chuvosos que passara ao lado dele, mas que não lhe serviam mais. Lembrou dos entardeceres na ciclovia ao lado do lago e dos inúmeros pores do sol que seus olhos viram ao lado daqueles olhos castanhos meio esverdeados, mas agora o céu estava nublado.

Pensou em todas as coisas que poderiam ter sido, mas que não foram. Pensou em tudo o que aconteceu, mas que não deveria ter acontecido.

Encontrou fotos e CDs, cartas e papéis de bombom escondidos no fundo da gaveta em que costumava guardar as coisas mais importantes. Olhou para o relógio e desejou por um instante que ele chegasse junto com o fim da tarde. Já eram quase seis, mas não haveria por do sol.

Guardou as fotos, os CDs, as cartas e os papéis inúteis de bombom em uma caixa. Pegou um pedaço de papel e escreveu umas palavras de despedida, era “adeus para nunca mais”. Juntou o seu passado o seu ex-destino, tinha novos caminhos já desenhados. Colocou tudo na caixa e a levou até a lixeira do condomínio. O fim da tarde tinha chegado, mas sem ele.

Trocou suas músicas preferidas pelo som dos carros na avenida e voltou para o quarto, fechou a janela e deitou para descansar enquanto cantava baixinho uma música de despedida.

O caminhão levaria o lixo embora ao amanhecer.

Daniela Lusa

 

 

Tanto faz. E se não for assim, então não era para ser. Não sinto afeto, não tenho mais carinho para lhe dar. Estou indiferente, talvez nem tenha percebido. Talvez você esteja assim, também. Eu não me importo.

Quem foi que disse que o amor dura para sempre? Não foi assim que eu sonhei a nossa vida. E agora vem a despedida: ponto final. Não vou dizer “adeus”, você se importa? Eu não me importo mais com a falta dos abraços da chegada nem com a ausência dos beijos da saída. O amor não deve ser forçado, vou te deixar partir. Do contrário, receio que não se trate exatamente de amor. Eu não quero nada que não seja amor.

Eu vivo fugindo de mim, vou e volto me escondendo pelos vazios que carrego no peito. Nunca me encontro. E eu cansei de mentir, cansei de me enganar, de te enganar: eu não te amo mais. E eu sei que você não gosta de mim, não suporta mais minhas crises e minhas neuroses. Nem eu suporto, para falar a verdade, mas é você quem as cria e as alimenta.

Então, já passou da hora de ir embora e levar tudo isso contigo. Faça suas malas e deixe a cópia da chave da porta dos fundos. Eu não me importo se você não se despedir.

Mas gostaria que se despedisse.

Mesmo não me importando. 

Daniela Lusa