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09 de novembro de 2016. “Dani, eu não consigo reagir”, ele me disse quando cheguei em casa com o coração apertado por já saber do que ele ainda não sabia. Encarei por um instante seus olhos tristes e amarelados e abaixei a cabeça, sem conseguir dizer uma palavra sequer. O que eu não imaginava é que o câncer estava devastando tão rapidamente o meu pai ― e estava prestes a nos devastar, também. 

16 de novembro de 2016. Foi a última vez que vi meu pai em casa. Estava bem, na medida do possível. Estava otimista: era para ser apenas uma cirurgia. Ele estava pronto para encarar o tratamento. Mas não teve a chance de lutar contra a doença. 

18 de novembro de 2016. Eu não estava preparada para ver meu pai, aquele homem que carregava qualquer peso nas costas, em uma cama de hospital. Amarelo, debilitado, sem conseguir respirar direito. A verdade é que nunca estamos preparados para esses golpes que a vida nos dá. Ninguém viu, mas eu desmoronei por dentro e, mesmo assim, me mantive em pé. Eu era feita de desespero e angústia, mas meus olhos não denunciaram a aflição ao meu pai. Eu não podia deixá-lo saber que o seu sofrimento me fazia sofrer também. Se eu soubesse que aquela seria a última vez que eu o veria com vida… Mas eu sabia. Infelizmente eu sabia que aquela seria a última vez de muitas coisas. A última vez que ouviria sua voz. A última vez que sentiria a força de sua mão apertando a minha. A última vez que eu tentaria tranquilizá-lo. A última vez que eu lhe serviria água. A última vez que eu ouviria sua respiração. Foi uma madrugada inteira de últimas vezes. E Deus me deu a oportunidade de falar com o meu pai pela última vez: eu pedi perdão e agradeci por tudo o que ele fez por mim, pelo que ele fez de mim. Pedi que descansasse. Acho que ele me ouviu.

19 de novembro de 2016. A luz do Sol iluminou o dia, mas meu pai não acordou. Por um descuido da Vida, a Morte me pegou pelos ombros e me colocou diante de uma realidade cruel e inevitável: ela fechou serenamente os olhos do meu pai. E então eu soube que depois daquela madrugada de últimas vezes viria uma sucessão de dias de “nunca mais”. Eu nunca mais ouvi sua voz. Eu nunca mais pude ligar pedindo para ele me encontrar. Eu nunca mais o vi brincando com os gatos. Eu nunca mais vou ver meu pai. Meu pai nunca mais vai voltar para casa. 
Mas, às vezes, eu ainda espero ele chegar.

Minhas mãos ainda se encaixam nas dela.

Pena que não caibo mais no seu colo.

Seu jeito se permeia em mim.

Queria entrar no seu abraço.

E viver pra sempre assim.

 

Peço desculpas aos leitores que se iludiram com o título de meu texto buscando, talvez, um modo de também dizerem o que não conseguem. Eu não consegui escrever mais do que cinco linhas. Não porque eu não tenha o que escrever ou não queira, muito pelo contrário: eu simplesmente não consigo. É começar a pensar na minha mãe que meus olhos transbordam em lágrimas que não são de tristeza tampouco de alegria. Acho que são lágrimas de gratidão, de respeito, de admiração, de pequenez diante de toda a grandeza daquela mulher que me deu a vida. E, como se isso já não bastasse, ela ainda dedicou toda a sua vida a mim e a meus irmãos. Toda. A. Sua. Vida. Toda. Ela não viveu por si, vive por nós. Eu sei que desde que o meu irmão, o André, faleceu, ela se tornou mais frágil e, ao mesmo tempo, incrivelmente mais forte. Meu Deus. Ela continua serena, mesmo vivendo um tormento interno. Meu Deus. Que força tem aquela mulher. Minha voz se cala quando a ouço, minha vida se acalma quando ela me fala. É a voz que eu sempre vou querer ouvir.

Não disse? Eu não consigo dizer. E estou aqui com os olhos marejados de tanto querer dizer o que palavra alguma seria capaz de expressar. 

Daniela Lusa

Foi no bar onde nos conhecemos que eu o vi pela última vez enquanto meus olhos procuravam qualquer coisa que não fossem os dele. Um erro tão vulgar que me condenou à bebedeira e à solidão de uma noite inteira. Ainda posso ouvir o bolero que cantavam no microfone chiado no exato momento em que ele entrou por aquela porta de vidro fumê. Eu gostava do jeito que ele me abraçava quando dançávamos bolero. Minha cara embriagada, aquela cara dissimulada. Como se apenas eu tivesse errado… “Eu te desculpo, mas você não precisa me prometer nada” foram as últimas palavras que ouvi da boca dele antes de sair por aí, antes de perder o meu rumo. Doeu e ainda dói. Eu chorei, eu bebi. Eu falei sem pensar, eu não sei mais o que pensar, eu fui sincera como não poderia ter sido. Minhas unhas roídas são testemunhas do arrependimento pelas palavras que eu falei sem pensar e da raiva por ele dizer que eu sempre faço a mesma coisa sendo que ele também sempre faz a mesma coisa. Eu o odeio, mas o amo.

No balcão do bar, vi quando me olhou e fingiu não ver. Eu fiz o mesmo, tudo bem. Eu não vou lhe fazer mais promessas.  Só quero esquecer o meu crime sem perdão enquanto bebo um vinho barato e o vejo sair pela mesma porta que eu entrei.

Nosso refrão de bolero chegou ao fim e meu vinho também. Nossos passos não mais se encontrarão em outra dança. E eu só lamento por não poder beber mais. 

Daniela Lusa

Meus olhos refletidos

No espelho da mágoa

Se enchem d’água

E em desconsolo

Desando a chorar.

Onde estão seus olhos

Quando não os vejo aqui?

Em que espelho se refletem,

Que outros olhos penetram,

Você chora por mim?

Meus olhos são poças d’água

E os seus, um céu limpo sem fim.

Não quero mais ver

A rua da sua casa

Por onde passa o meu sofrer.

Vou trancar a minha rua

E o meu sentir

Aqui você não passa mais,

Em mim você já não mora.

Dani Lusa

De que delicadeza você está falando, afinal? O amor destrói.

Destrói a gente aos poucos para ir reconstruindo tudo depois, de um jeito diferente, de um jeito que você jamais pôde imaginar. Ele não foi delicado comigo, nem um pouco sutil. Quando chegou pela primeira vez, me devastou por completo e eu fiquei em ruínas. Não foi fácil refazer o que antes me era perfeito. Quando ele chegou pela segunda vez, me reergueu e eu pude me reconstruir aos poucos. Ainda me faltam alguns pedaços, é verdade, mas imagino que estejam perdidos por aí. Hora dessas eu encontro e me ajusto, somos moldáveis ao tempo e ao espaço que ocupamos. Eu não sei exatamente a dimensão do amor que me ocupa ou até quando ele será responsável por sustentar minhas estruturas, mas eu tenho espaço o suficiente para que ele cresça e me mude todas as vezes que forem necessárias.

O amor não é delicado, mas é forte o bastante para moldar o meu sentir. 

Daniela Lusa

Vago sem rumo

A esmo

Em território sem dono

E que tampouco pertence a mim.

Não sei onde estou,

Como cheguei.

Estou comigo só e sem ninguém.

É tudo vago, perdido.

Não vejo o Sol

Nem a Lua

Nem a mim.

Onde estou, afinal?

Perdida no sentimento que eu

Já não conheço mais,

Vagando no espaço que nunca me pertenceu

De verdade:

Sou uma estranha nesse seu amor.

Daniela Lusa