Archives For Carina Destempero

O que você faz quando o motorista do ônibus passa em cima de uma poça d'água enquanto você está na calçada e te molha inteiro?
O que você faz quando, totalmente encharcado, tira os óculos pra limpar em algum lugar seco escondido debaixo do casaco e um motoqueiro surge do nada derrapando tão perto de você que o susto te faz derrubar os óculos?
O que você faz quando, sem enxergar praticamente nada devido aos seis graus de miopia, você apenas escuta o barulho do óculos batendo no chão, sente que todos à sua volta começaram a se mexer, e vislumbra um borrão verde onde sabe estar o sinal de pedreste e entende que seus óculos estão perdidos e despedaçados na manada que atravessa a rua correndo na chuva?
O que você faz enquanto atravessa a rua quase levado pela multidão, quando lembra que falta apenas meia hora pra prova começar, e que se perder essa chance terá que esperar até o ano que vem?
O que você faz quando consegue, sabe-se lá como, chegar ao local da prova, mas está tão tomado de raiva pela chuva, pelo motorista de ônibus, pelo motoqueiro, pelo universo, que não consegue se concentrar nem pra ler a questão da prova, muito menos respondê-la, ainda mais porque precisa quase colar os olhos no papel para enxergar e já está ficando com dor de cabeça?
O que você faz quando derruba a prova, o fiscal pensa que você está colando, mas acaba se convencendo que não, e seu coração aos poucos vai voltando ao ritmo normal, e o susto traz uma lucidez que se parece muito com um novo par de óculos?
O que você faz quando entrega a prova sabendo que não acertou tudo, mas que fez o que pôde?
O que você faz quando percebe que não desistiu?
O que você faz quando lembra dos óculos perdidos, e se assusta ao lembrar de tantas vezes que usou ele e outras coisas como desculpa para não fazer algo que precisava fazer?
O que você faz quando nada acontece do jeito que você imaginou, quis e esperou?
 
Viver é caminhar na chuva, molhado, sem óculos, com seis graus de miopia, e ainda assim continuar.
 
Carina Destempero

Desafio da Semana:

19/06 - Eu uso óculos

O pior
cego é o que pode ver
mas não enxerga
minha mãe repetia
a cada vez que eu
me machucava
me lamentava
me irritava
a cada vez que eu
culpava meus olhos
falhos pelas falhas
da minha vida
eu a ignorava
achava que era
pena
culpa
negação
um sentimento menor
que a fazia repetir essa frase
até que um dia
eu vi
que ela tinha razão
quando um não-cego
que eu amava
não conseguiu enxergar
uma traição
e vi de novo
quando um amigo sem
problemas de visão
não reparou que o grande
amor
que ele buscava
já estava ao seu lado
quanto mais os anos
passavam
mais eu enxergava
mesmo sem ver
passei a enxergar com
os pés
as mãos
a alma.
Por isso hoje
não me irrito mais
quando paro em frente
a um espelho
e não vejo
se tenho olhos escuros
se meu nariz é grande
se minha testa é desenhada por rugas
quando paro em frente
a um espelho
ou a um vidro
ou à uma parede
quando apenas paro
e me deparo
com o vazio que a cegueira
me traz eu me enxergo
livre
eu me descubro
infinito
e abro um sorriso
que sei que é lindo
sem nem precisar
olhar.

Desafio da Semana:

12/06 - Limites

Eu passei milênios no mesmo lugar. Sem me mexer, no entanto perdendo minúsculos pedaços de mim que se desprendiam com a ação da água, do vento, de animais, do homem, de todos aqueles que têm o luxo de mover-se. Hoje, todos esses pequenos pedaços estão espalhados pelo mundo. Entrando em sapatos, arranhando a pele, pressionando o músculo. Forçando o movimento de quem nos encontra. Não sou preconceituosa: entro nas botas dos soldados e chinelos dos mendigos, entro em sapatos de salto alto de mulheres elegantes e tênis de crianças, sapatilha de bailarinas e na sua pantufa, em casa, enquanto você acredita estar no maior conforto possível, saindo do banho antes de dormir. Às vezes acabo machucando alguém, é verdade, mas é um machucado leve, não quero causar grandes danos. Apesar disso, sei que já me transformaram em metáfora para algo ruim, uma pedra no sapato pra maioria das pessoas é algo que incomoda, e tudo que incomoda é ruim, certo? Errado. O que acontece quando algo lhe incomoda? Você muda. Você troca o sapato, o caminho, você repensa, busca uma nova saída, você cria soluções e inventa outras formas para lidar com o desconforto. Você se mexe. E é disso que a vida é feita, movimento. Estranho que algo como eu, estático por natureza, precise te dizer isso.

Carina Destempero


Desafio da Semana:

5/06 - Objetos

O desafio literário da semana é de Carina Destempero:

Escrever um texto a partir do ponto de vista de um objeto inanimado.


Textos publicados para este desafio:

- Delícias
6/06 - A casa
7/06 - Pedra no sapato
8/06 - “Mas que bobagem as rosas não falam”
9/06 - Envolvendo amor
10/06 - rotina

No instante mesmo em que você atende dizendo Alô o ovo estoura na panela quente e salpica meu pulso acelerado com um respingo ardente que me distrai e te faz repetir, Alô?, e dessa vez é a falta de paciência notória na sua voz que me faz calar, e então você, pela terceira vez, Alô?, porra!, que saco, não vai falar nada?, e o arrependimento de ter ligado, o medo que você descubra que sou eu que estou ligando, a vontade de responder sendo igualmente grosseira, a vontade de responder me desculpando imediatamente, a vontade de responder tranquilamente fingindo que sua voz não me afeta mais, a vontade de que sua voz realmente não me afetasse mais, a vontade de que você não me afetasse mais, a vontade de ao menos saber o que eu deveria fazer nesse exato momento fazem com que o tempo passe mais uma vez sem que eu aja, e você então bate o telefone na minha cara, e sinto que o vazio do outro lado da linha de fato queima meu rosto, permaneço paralisada por mais não sei quantos segundos, ou minutos, por não sei quantas vidas, até que o alarme de incêndio me traz de volta à cozinha, sem pensar jogo a panela na pia, ligo a torneira, e é só com o cômodo cheio de fumaça que enxergo pela primeira vez que o medo de me queimar é que faz com que eu coloque fogo em tudo à minha volta.

Carina Destempero

 


Desafio da Semana:

29/05 - Conversando e fritando um ovo

"A palavra é prata, o silêncio é ouro",
 
você disse antes de me beijar, antes que eu começasse um discurso enorme e enrolado no qual eu tentava justificar meu desaparecimento depois da nossa última noite juntas,
 
É que estar com você faz com que o mundo vire uma grande e ridícula comédia romântica, como se fôssemos um casal de novela das oito, lindas e absurdamente perfeitas, cantando 'Como uma deusa' a plenos pulmões no meio da praça, comprando rosas uma pra outra de madrugada na porta do boteco no Leblon, não tem a menor chance disso dar certo, é melhor a gente parar por aqui antes de sofrer.
 
"Só o peru morre de véspera",
 
você sorriu e sussurrou dentro da minha boca, você e a sua mania de retrucar com algum ditado popular tudo que eu digo, você e esse jeito que você tem de fazer com que eu me separe de mim e mergulhe de olhos fechados em você, você que sem pedir me faz dar o que eu não tenho, e antes de adormecermos, sorrindo e com as pernas entrelaçadas, te prometo, Dessa vez eu não vou fugir.
 
"Falar é fácil, o difícil é fazer",
 
e dessa vez foi uma voz dentro da minha cabeça que recitou o provérbio quando eu despertei e vi os primeiros raios de sol iluminando o seu rosto, e senti como se o calor deles estivesse queimando um caminho pra dentro do meu peito, como se tivesse engolido um lustre cheio de homenzinhos de fogo que queimavam meu coração, como se eu fosse uma bruxa na fogueira da inquisição, e a voz então continuou, Como assim você ousa acreditar no Amor?, Como assim, ainda que por algumas horas, você ousa não pensar no dia seguinte?, Como assim, ainda que uma única vez, você ousa ceder ao seu desejo e não se preocupar com o que está por vir?, e a culpa, minha culpa, minha máxima culpa chega com força total enquanto eu me levanto da cama e penso que enlouqueci, enquanto pego minha roupa caída no chão e penso que mereço arder no Fogo do Inferno, enquanto te olho uma última vez antes de sair, já tentando esquecer enquanto ainda (será que ainda?) posso que Era uma vez houve uma madrugada em que não pensei – e fui feliz.
 
Carina Destempero

Desafio da Semana:

22/05 - Escrevendo certo por linhas tortas…