Archives For A delicadeza do amor

Beija-me agora!

Arranque o lastro daquele passado gris.

Faça-me feliz!, mais que ontem.

Esqueça que, antes, não mais 

Me permitia. 

 

Navegue minha história

sem graça.

Arranca-me a roupa,

Lambuze-se no meu mar de você.

Voe, voe, voe, voe!

 

Mais do que isso,

Não espere de mim.

Pois hoje sou passarinho

Que voa livre

No seu céu.

 

Canta, canta gaivota

Festa em dias de sol!,

Junto ao arrastão 

Da alma que, enfim, 

sorri. 

De que delicadeza você está falando, afinal? O amor destrói.

Destrói a gente aos poucos para ir reconstruindo tudo depois, de um jeito diferente, de um jeito que você jamais pôde imaginar. Ele não foi delicado comigo, nem um pouco sutil. Quando chegou pela primeira vez, me devastou por completo e eu fiquei em ruínas. Não foi fácil refazer o que antes me era perfeito. Quando ele chegou pela segunda vez, me reergueu e eu pude me reconstruir aos poucos. Ainda me faltam alguns pedaços, é verdade, mas imagino que estejam perdidos por aí. Hora dessas eu encontro e me ajusto, somos moldáveis ao tempo e ao espaço que ocupamos. Eu não sei exatamente a dimensão do amor que me ocupa ou até quando ele será responsável por sustentar minhas estruturas, mas eu tenho espaço o suficiente para que ele cresça e me mude todas as vezes que forem necessárias.

O amor não é delicado, mas é forte o bastante para moldar o meu sentir. 

Daniela Lusa

Chega de espaço
entre
minha boca e a sua.
Chega de lonjuras.
Se achegue
e fique mais perto.
Coloque seus olhos na minha altura.
Aumente sua respiração
e suspire
na mesma velocidade
que eu reparo.
Não diga nada.
Só se aproxime.
Nossos corpos
são barreiras desnecessárias.
Não quero fronteiras
nem mapas
muito menos distâncias.
Esquece o que tá em volta
e volta.
Vem
vai
vamos logo pra dentro um do outro.
Um beijo acontece
quando duas pessoas descobrem
que muitas coisas
podem ficar pra depois.

Como você pode falar em delicadeza do amor? Eu não conheço delicadeza do amor, isso pra mim não faz sentido. Eu acho que amor é a força mais violenta que existe. Não falo de modo pejorativo, se você esquecer a conotação negativa dada à palavra e entender, como diz o dicionário, que "violência é o exercício desproporcional do poder ou força que se sobrepõem ao princípio da integridade", vai saber do que estou falando. O amor destrói, a mim sempre destruiu. Esse é o amor que eu conheço. O amor que derruba minhas defesas e barreiras, que rasga meus ideais e planos, que pisoteia meu pensamento racional e sorri cheio de si ao me ver perdida. O amor me quebra todas as vezes, e não só quando eu sofro. Ele me quebra ainda mais quando é bom. Quando é inesperadamente bom, quando me dá esperança, quando me faz feliz pela noção banal e mágica de que nós dois, no meio de tanta dor, de tanto desprezo e embotamento nos encontramos e não nos largamos. O amor é violento quando agora o simples fato de escrever essas letras faz com que a nossa história passe por detrás do papel em vultos e me encha os olhos de água mais uma vez ao me lembrar da força que nos une quando nem nós parecemos querer nos unir. O amor me destroça quando a consciência das nossas diferenças me assalta, naquele momento em que sei com absoluta certeza que nós jamais iremos completar um ao outro, e que é por isso mesmo que nunca conseguiremos estar separados, porque só quando dividimos nossas faltas é que podemos suportá-las. Nem quando tudo está tranquilo o amor me parece delicado. Até a paz que o amor traz é viva, pungente, é uma tranquilidade que longe de aplacar me faz querer mais da vida, mais de mim, mais de você. Eu nunca entendi quem fala de amor como algo puro e belo, mas agora me ocorre que talvez falemos do amor desse jeito delicado pra nos enganar, pra disfarçar o medo e não sair correndo no instante em que sentimos que ele nos espreita. Talvez essa seja a única delicadeza que o amor faz, fantasiar-se de beleza à primeira vista pra nos dar a chance de não fugir desesperadamente quando a onda começa a se formar.

Carina Destempero

 

ceu


Estavam os dois dormindo pesadamente quando um gemido vindo do quarto ao lado começou a ameaçar mais uma noite de sono. Não era raro isso acontecer naqueles tempos. Foi preciso um ou dois gemidos mais altos para que eles enfim despertassem. Ela sempre levantava à noite para atender. Sentia pena de acordar o marido no meio da noite. Os dias no trabalho eram longos e ela sabia que ele precisava descansar. Estava esgotado com tantas demandas, dentro e fora de casa.

Mas naquela noite ele acordou junto com ela. Pode deixar que eu vou dessa vez, afinal ele é minha responsabilidade. Ela não insistiu. Sabia que isso talvez aliviasse um pouco a culpa que ele carregava. Deu um longo suspiro de resignação, levantou-se e foi para o quarto.

Aqueles dois olhinhos miúdos já estavam alertas na cama, esperando que alguém chegasse. E ficaram surpresos quando a luz do abajur iluminou melhor o quarto, e os olhinhos puderam ver uma silhueta diferente saindo do escuro. Não era ela dessa vez, como sempre acontecia. Era ele.

Foi até a cômoda e pegou tudo que precisava. O pacote de lenços umedecidos, o tubo de Hipoglós, uma fralda. Os olhinhos acompanhavam cada movimento dele. Colocou tudo em cima da cama e começou o ritual. Puxou a coberta para o lado. Abaixou com cuidado as calças do pijaminha de flanela. Fazia frio naquela noite, e ele tinha todo o cuidado para não expor demais aquele corpinho tão vulnerável. A fralda estava mesmo pesada, cheia de xixi, e devia estar incomodando bastante. Tinha razão em gemer alto, pensou, enquanto tirava a fralda suja. Passou o lenço umedecido por todas as dobras, na frente e atrás. Fazia com delicadeza para não ferir aquela pele fina, tão frágil. Pegou o tubo de Hipoglós e espremeu um punhado nas mãos. E foi aplicando nas dobras, nas partes mais irritadas. Precisava fazer tudo com muita calma para não agravar ainda mais as feridas.

E enquanto espalhava a pomada por aquele corpinho, por algum motivo que nunca saberia explicar, começou a cantarolar uma canção antiga, bem antiga. E cantarolava baixinho, bem baixinho. Não se deu conta de que era uma música que seu pai costumava cantar quando ele era criança, quando chegava a hora de dormir. E quando ele se voltou para aqueles olhinhos miúdos, eles estavam embaçados. As lágrimas brotavam dos olhos, descendo lentamente por um rosto cheio das rugas e manchas do tempo. E ele também não conseguiu segurar as lágrimas, e passaria o resto daquela noite velando o sono dele e segurando suas mãos.   
 

Luis Mangi

FANTASIA

10 de outubro de 2016 - 2a.feira, A delicadeza do amor, Ana Suy

 

Você foi embora e eu fui com você. Seria simples, se o meu corpo não tivesse ficado aqui sem alma, perambulando por aí. Todo o meu pedaço encantado pela sua presença deixou de existir junto com você e tudo o que restou aqui foram tecidos, órgãos e células: minha existência foi reduzida a puro organismo, sem magia alguma. Tornei-me algo do tipo ~ o lado de dentro do meu fígado ~, se é que fígado tem lado de dentro. Tornei-me algo que nunca foi visto antes, embora já estivesse no mundo. Toda a minha existência, recoberta por você, apalpada por seus olhos, tocada por seus ouvidos, beijada por sua pele, sentida por suas papilas gustativas, etc etc etc, sente a sua falta. Nada em mim faz sentido viver, se não for passar pela sua existência. Viver num mundo sem você é mais inútil do que capinha de guarda-chuvas . Tenho pensado em tirar a minha vida, em me arrancar do mundo, em me aliviar da dor de viver num mundo onde você não respira. Se ao menos você tivesse me deixado filhos eu teria motivos pra continuar ancorada nessa realidade gélida. Ontem eu sonhei com você. Você me traía com a garçonete bonitinha daquele café que eu gosto. Acordei com raiva de você. Que bom. Você me abandonou nesse mundo mesmo sabendo que eu só comecei a gostar de viver depois que te conheci. Sei que não morreu de propósito, mas isso só me deixa mais irada. Ter morrido mostra a sua impotência diante do mundo, com a qual eu tanto me identifico, e da qual eu me senti poupada diante da sua alegria de viver, que se transformava em força em mim, quando eu te olhava. Era tudo fantasia. Sempre foi tudo fantasia. O mundo não passa de uma sucessão de fantasias onde a gente faz as pessoas caberem nas nossas e se encaixa nas delas. É isso, se tem uma coisa que eu amei nesse mundo, foi caber na sua fantasia. Mas sem você, não tem fantasia pra mim. Retornei ao desconforto da minha própria pele. Nunca haverá uma casa tão aconchegante para a minha existência quanto foi morar de aluguel no seu desejo. Amanhã publicarei um anúncio no jornal: “procura-se olhos para morar, pago a vista”. 

 

Ana Suy