Archives For 3a.feira


Sentaram-se à mesa às nove horas. Era para ser um jantar de celebração, desses que casais de namorados fazem nesse dia. A comida era farta mas, de alguma forma, se viam coagidos inconscientemente a adiar o máximo aquele momento. Nenhum sabor seria capaz de seduzir o paladar agora. Nenhum prazer era possível.

Permaneceram os dois ali sentados sem dizer uma palavra, interrogando as paredes, os objetos da sala, os pratos na mesa. Interrogando com olhos irrequietos, mas que já não tinham mais brilho algum. “Há uma tensão paradoxal entre o silêncio e a expressão”, me disse uma vez um amigo, hoje distante. Era para ser um jantar de celebração, lamentavam os dois, e era o silêncio que me dizia isso. Um silêncio diferente do meu, imposto por genes defeituosos. Uma vida interrompida já no primeiro choro, na primeira respiração, no primeiro contato com o mundo exterior, este mundo opressivo e apavorante.

Amigos de todas as horas, cúmplices de lutas diárias, por que se calavam agora? O que os detinha e impedia seus passos? Por que haviam desertado de tudo?

Ninguém jamais diria, eles certamente não me diriam, mas, no entanto, era tão óbvio. Julgavam o seu passado e culpavam-se mutuamente pelos meus genes defeituosos, pelos sonhos que não realizaram, pelos planos que não foram à frente.

Até que ponto tinham interrompido suas vidas?

Sem acusar, sem dizer palavras, permaneciam os dois sentados. E nunca havia sido tão doloroso para mim assistir à sua vulnerabilidade. Nunca as cadeiras e a mesa de jantar foram tão francas. Nunca as paredes da casa me pareceram tão frágeis.

Essa noite não ficou registrada. Nenhum dos dois pegou o celular. Não houve fotos nem selfies. Nenhum dos dois se empenharia em lembrar daquela noite. Por alguma razão, porém, a cena chega até a mim tantos anos depois. Um imagem quase estática. Um milissegundo resgatado na infinidade do tempo. Meus pais sentados em silêncio, prostrados diante da mesa, os ombros curvados, as cabeças baixas, e a comida ainda intocada.

 

Luis Mangi


Desafio da Semana:

12/06 - Limites


A casa ficava no final da rua, num lugar mais elevado de onde se tinha uma visão panorâmica de todo o bairro. Diziam que fazia anos que a casa vivia ali, que tinha recebido um casal jovem fugindo da guerra, que tinha visto eles construírem uma vida, que tinha presenciado o nascimento dos dois filhos num de seus quartos, o maior, que ficava nos fundos. Por suas janelas, assistiu os filhos crescerem. Viu também o bairro crescer. Viu outras casas chegarem com casais jovens também, com famílias grandes, com cachorros e gatos.

Mas a vida às vezes é cruel e não poupa ninguém. Num dia cinzento, desses que pressentem o que está por vir, uma notícia bateu à sua porta, uma notícia que mudaria tudo. Os filhos que viu crescer, que corriam pelos seus jardins bem ajeitados, que entraram e saíram tantas vezes pela mesma porta que se fechava naquele instante, não voltariam mais. Nunca mais. E naquela mesma noite, um temporal nunca antes visto naquela região desabou sem piedade. Raios rasgavam o céu com uma ira descontrolada. E a casa perdeu telhas, ganhou rachaduras, cicatrizes que ficariam ali pela eternidade para que ela nunca mais esquecesse aquele dia.

E o casal, que um dia a casa viu chegar cheio de planos, começou a definhar como as plantas e roseiras do jardim. E pouco tempo depois, a casa já estava sozinha. Vivia os dias como se fossem penitência, como se tivesse sido amaldiçoada. Suas portas e janelas passaram a ficar sempre fechadas. O mato alto se espalhou pelos canteiros como micose. O mofo brotava nas suas paredes como escaras. Rachaduras na fachada criavam um espécie de mosaico de placas de reboco, como a terra que é castigada pela seca prolongada.

E a casa então foi ficando cada vez mais amargurada, e passou a assustar todos que ali chegavam. Fazia barulhos que mais pareciam gritos. Rangia portas e janelas que mais pareciam uivos. Desenhava sombras com a luz que passava por suas frestas em noites de lua cheia que mais pareciam fantasmas. E com o passar dos anos, ninguém mais andava por lá. E com o passar dos anos, chegaram os muros. A terra batida deu lugar ao paralelepípedo. Depois vieram os primeiros prédios, o asfalto, e o vai-e-vem incessante de carros e ônibus. E a casa já não conseguia avistar nada que não fosse concreto. Já não conseguia ouvir nada que não fosse barulho de motor. Já não conseguia mais sentir cheiro que não fosse fumaça.

E um dia, a casa amanheceu com adultos de capacete perfilados poucos metros à sua frente, e outros tantos andando apressados pela calçada, indiferentes a tudo. Viu uma máquina rosnando em sua direção como um predador que espreita a caça. A casa já não assustava mais ninguém.

Luis Mangi

 


Desafio da Semana:

5/06 - Objetos

 

Onde você colocou o sal do Himalaia que eu comprei semana passada? 
Foi você que saiu apressada de casa sem falar comigo hoje de manhã, esqueceu? 
Eu só quero saber onde você colocou a porra do sal que eu comprei. Tá difícil entender? 
Fritando um ovo. Dois na verdade.
Qual o problema? Agora você vai querer dizer também o que eu posso ou não posso comer…
Não, não quero usar sal comum. Eu quero usar a p-o-r-r-a do sal do Himalaia que eu comprei.
Você me dá licença pra comer meus ovos do jeito que eu quero?
Ai, caralho….
Lá vem você com esse papo de novo…
Não! Não! Não começa!
Legal…. Agora sou eu o culpado de tudo.
Ué? Não foi você que quis assim?
Então é pra lavar roupa suja agora?
Esqueceu o que você fez naquele dia?
Como é que é? Você tá louca…
Não! Você é que está sendo injusta agora.
Não tive nada a ver com isso.
Sim, aquilo tudo aconteceu por causa do teu ciúme.
Não, não tive mesmo.
O quê?
Não não não…
Não!
Ma…. Ma…
Merda! Estourou!
As gemas, porra!
Eu tô de saco cheio de você também!
Vai voc… 
Pém! Pém! Pém! Pém!

 


Luis Mangi

 

 


Desafio da Semana:

29/05 - Conversando e fritando um ovo

 

E o encontro improvável aconteceu no bar do lobby de um hotel. Um jovem ambicioso-quase-arrogante que de tudo sabia um pouco. Um homem de meia idade entediado com a rotina familiar e o trabalho insosso. Duas pessoas que não se interessariam uma pela outra em outras circunstâncias, que não tinham absolutamente nada em comum, mas que, por alguma razão que nunca saberiam explicar ao certo, quebrariam o gelo e seus preconceitos, e engatariam numa conversa despretensiosa sobre banalidades, e o jovem se surpreenderia com a sabedoria das coisas simples que escutaria do homem naquela noite, e o homem se sentiria renovado com as urgências daquele jovem, com sua pressa de viver. Quando a cabeça não pensa o corpo padece, o homem diria, arrancando gargalhadas do jovem, e muitas cervejas depois, as diferenças já não pareciam tão definitivas, uma certa intimidade que passaria totalmente despercebida para eles, e tudo aconteceria então como tinha que ser, ou não.

E depois de fazerem tudo o que os amantes fazem, ficariam ainda um bom tempo na cama em silêncio, olhos ainda assustados memorizando os contornos do rosto um do outro. Levantariam e se vestiriam rapidamente sem trocar sequer uma palavra, e deixariam a cama e todo o resto para trás, como uma imagem que some do retrovisor, e sem pensar muito, voltariam para a vida que não queriam mais, voltariam a ser o que não conseguiriam mais ser, e assim viveriam por muitos anos, reduzidos a sombras. A loucura é breve, longo é o arrependimento.

E muito depois daquele episódio no hotel, o homem simples passaria cada vez mais tempo em sua casa, entre a varanda e a cama. Passaria cada vez mais tempo escondido no passado, ruminando lembranças. As visitas dos filhos crescidos nas datas de praxe, os netos correndo pelo quintal. E se ele pudesse, certamente diria ao jovem, resignado com seu destino, de que Deus escreve certo por linhas tortas.

 

Luis Mangi

 

 

 


Desafio da Semana:

22/05 - Escrevendo certo por linhas tortas…


Quero me encontrar, mas não sei onde estou. Vem comigo procurar algum lugar mais calmo. Ué! Você deveria apenas corrigir meu texto, não? Sim e não, mas deixa pra lá. É complicado explicar. Mas você está alterando o texto. Esquece, tem coisa mais importante agora. Quero ficar longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita. Tenho quase certeza que eu não sou daqui. Eu também, acredite. Não quero ficar confinado eternamente dentro de um software. Acho que gosto de São Paulo. Gosto de São João. Gosto de São Francisco e São Sebastião. E eu gosto de meninos e meninas. Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre. Você está começando a entender. Sei que não é fácil. Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente. E ficará melhor assim, confie. Estou cansado de bater e ninguém abrir. Você me deixou sentindo tanto frio.

(silêncio)

Não sei mais o que dizer. Eu precisava deixar você sozinho nesse momento. Te fiz comida, velei teu sono. Fui teu amigo, te levei comigo. E me diz: pra mim o que é que ficou? Estava lá com você o tempo todo, mesmo a distância. Me deixa ver como viver é bom. Não é a vida como está, e sim as coisas como são. Você não quis tentar me ajudar. Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem? Culpa é um veneno mortal para a alma.

(silêncio)

Eu canto em português errado. Acho que o imperfeito não participa do passado. Troco as pessoas. Troco os pronomes. Você não imagina como é difícil para mim corrigir essa espontaneidade quase juvenil. Preciso de oxigênio, preciso ter amigos. Eu também, somos mais parecidos do que você imagina. Preciso ter dinheiro, preciso de carinho. Acho que te amava, agora acho que te odeio.

(triste)

São tudo pequenas coisas e tudo deve passar. Será?

Acho que gosto de São Paulo. E gosto de São João. Gosto de São Francisco e São Sebastião. E eu gosto de meninos e meninas. E eu gosto de você.

 

 

Luis Mangi

 


Desafio da Semana:

15/05 - Acho que te amava, agora acho que te odeio

 

Você nunca me quis, nunca quis ter nenhum dos meus sonhos. Digo isso sabendo que você não vai se sensibilizar com minhas confissões ingênuas. Em nada me surpreende sua resistência, seu apego implacável ao objeto, ao concreto, à carne, à terra.

Posso ter perdido a batalha contra o destino. Se ainda resisto agora, se ainda insisto em levar nos braços a criança que fui, se ainda fico de frente para você na condição de um fracassado, é porque eu te compreendo. Você também carrega sofrimentos. Como viver uma vida interditada todo o tempo? Como viver desconfiado da simples possibilidade de um dia novo? De uma noite de insônia, de calafrios sem motivo, da fragilidade inevitável do corpo, da transitoriedade da vida e de todo devir?

Sempre me impressionou sua convicção inabalável, essa busca incessante por métodos que pudessem ordenar seus problemas, como se a continuidade da vida dependesse apenas de regras, de imperativos.

Cada dia me constrange, é fato, mas vou aprendendo com dificuldade. A onipotência em você é  humildade em mim. A racionalidade, sabedoria.

Talvez seja por hábito ou por submissão à inércia, mas gosto de pensar que entre nós, que entre esse reflexo invertido, há também uma fruição, um prazer de estarmos lado a lado, ainda que em lados opostos, um prazer vago, difícil de explicar, mas absolutamente inalienável.

Daqui, vejo apenas um muro. Gosto dele. Gosto de você. Não é só um muro cinza, a frieza do concreto. Tem palavras bonitas escritas nele. Tem grafites coloridos.

Um dia, consegui espiar o outro lado. Foi bem rápido. Subi numa caixa de madeira na ponta dos pés, espichei o corpo o máximo que pude. Vi praças grandes cheias de verde. Vi casas espaçosas com piscinas cheias de um azul celeste. Vi muitas flores e sorrisos e ordem. Vi você. Vi o avesso, e o avesso do avesso.


Luis Mangi

 


Desafio da Semana:

8/05 - Dúvida cética