Archives For Luis Mangi

Na semana do dia 03/04/2017, o desafio literário proposto por Xico Barbosa foi:

Uma pessoa acorda. Corre a mão pela cama e não encontra o outro. Debaixo do travesseiro há um bilhete. Qual o sentimento ao encontrá-lo? O que está escrito? Como ela ficou após a leitura?

Para essa semana, Xico propõe o seguinte desafio:

Escreva agora a visão do autor do bilhete. O texto deve ser baseado no texto do confrade do dia anterior.  Ana usará o texto publicado por Xico. Mangi , o de Ana. Carina, o de Mangi. Tiago, o de Carina. Julia, o de Tiago. Xico, o de Julia.


Textos publicados para este desafio:

26/06 - TEMPO

O desafio literário da semana é de Julia Nogueira:

Uma pessoa com 6 graus de miopia está em cima da hora para um compromisso muito importante, e no caminho o óculos de grau quebra.

 


Textos publicados para este desafio:

19/06 - QUANDO VOCÊ TEM 13 ANOS
21/06 - O que você faz?
22/06 - A pequena história de uma grande menina
23/06 - Visão aquarela
24/06 - cirurgia


Sentaram-se à mesa às nove horas. Era para ser um jantar de celebração, desses que casais de namorados fazem nesse dia. A comida era farta mas, de alguma forma, se viam coagidos inconscientemente a adiar o máximo aquele momento. Nenhum sabor seria capaz de seduzir o paladar agora. Nenhum prazer era possível.

Permaneceram os dois ali sentados sem dizer uma palavra, interrogando as paredes, os objetos da sala, os pratos na mesa. Interrogando com olhos irrequietos, mas que já não tinham mais brilho algum. “Há uma tensão paradoxal entre o silêncio e a expressão”, me disse uma vez um amigo, hoje distante. Era para ser um jantar de celebração, lamentavam os dois, e era o silêncio que me dizia isso. Um silêncio diferente do meu, imposto por genes defeituosos. Uma vida interrompida já no primeiro choro, na primeira respiração, no primeiro contato com o mundo exterior, este mundo opressivo e apavorante.

Amigos de todas as horas, cúmplices de lutas diárias, por que se calavam agora? O que os detinha e impedia seus passos? Por que haviam desertado de tudo?

Ninguém jamais diria, eles certamente não me diriam, mas, no entanto, era tão óbvio. Julgavam o seu passado e culpavam-se mutuamente pelos meus genes defeituosos, pelos sonhos que não realizaram, pelos planos que não foram à frente.

Até que ponto tinham interrompido suas vidas?

Sem acusar, sem dizer palavras, permaneciam os dois sentados. E nunca havia sido tão doloroso para mim assistir à sua vulnerabilidade. Nunca as cadeiras e a mesa de jantar foram tão francas. Nunca as paredes da casa me pareceram tão frágeis.

Essa noite não ficou registrada. Nenhum dos dois pegou o celular. Não houve fotos nem selfies. Nenhum dos dois se empenharia em lembrar daquela noite. Por alguma razão, porém, a cena chega até a mim tantos anos depois. Um imagem quase estática. Um milissegundo resgatado na infinidade do tempo. Meus pais sentados em silêncio, prostrados diante da mesa, os ombros curvados, as cabeças baixas, e a comida ainda intocada.

 

Luis Mangi


Desafio da Semana:

12/06 - Limites

O desafio literário da semana é Tiago Moralles:

Contar a história de alguém com algum tipo de deficiência física.


Textos publicados para este desafio:

- O amor é cego
13/06 - Vidas interrompidas
14/06 - Descoberta
15/06 - Cê não faz ideia de quanta roupa dá pra guardar com uma mão
16/06 - Risoto de funghi secchi
17/06 - o próximo do próximo


A casa ficava no final da rua, num lugar mais elevado de onde se tinha uma visão panorâmica de todo o bairro. Diziam que fazia anos que a casa vivia ali, que tinha recebido um casal jovem fugindo da guerra, que tinha visto eles construírem uma vida, que tinha presenciado o nascimento dos dois filhos num de seus quartos, o maior, que ficava nos fundos. Por suas janelas, assistiu os filhos crescerem. Viu também o bairro crescer. Viu outras casas chegarem com casais jovens também, com famílias grandes, com cachorros e gatos.

Mas a vida às vezes é cruel e não poupa ninguém. Num dia cinzento, desses que pressentem o que está por vir, uma notícia bateu à sua porta, uma notícia que mudaria tudo. Os filhos que viu crescer, que corriam pelos seus jardins bem ajeitados, que entraram e saíram tantas vezes pela mesma porta que se fechava naquele instante, não voltariam mais. Nunca mais. E naquela mesma noite, um temporal nunca antes visto naquela região desabou sem piedade. Raios rasgavam o céu com uma ira descontrolada. E a casa perdeu telhas, ganhou rachaduras, cicatrizes que ficariam ali pela eternidade para que ela nunca mais esquecesse aquele dia.

E o casal, que um dia a casa viu chegar cheio de planos, começou a definhar como as plantas e roseiras do jardim. E pouco tempo depois, a casa já estava sozinha. Vivia os dias como se fossem penitência, como se tivesse sido amaldiçoada. Suas portas e janelas passaram a ficar sempre fechadas. O mato alto se espalhou pelos canteiros como micose. O mofo brotava nas suas paredes como escaras. Rachaduras na fachada criavam um espécie de mosaico de placas de reboco, como a terra que é castigada pela seca prolongada.

E a casa então foi ficando cada vez mais amargurada, e passou a assustar todos que ali chegavam. Fazia barulhos que mais pareciam gritos. Rangia portas e janelas que mais pareciam uivos. Desenhava sombras com a luz que passava por suas frestas em noites de lua cheia que mais pareciam fantasmas. E com o passar dos anos, ninguém mais andava por lá. E com o passar dos anos, chegaram os muros. A terra batida deu lugar ao paralelepípedo. Depois vieram os primeiros prédios, o asfalto, e o vai-e-vem incessante de carros e ônibus. E a casa já não conseguia avistar nada que não fosse concreto. Já não conseguia ouvir nada que não fosse barulho de motor. Já não conseguia mais sentir cheiro que não fosse fumaça.

E um dia, a casa amanheceu com adultos de capacete perfilados poucos metros à sua frente, e outros tantos andando apressados pela calçada, indiferentes a tudo. Viu uma máquina rosnando em sua direção como um predador que espreita a caça. A casa já não assustava mais ninguém.

Luis Mangi

 


Desafio da Semana:

5/06 - Objetos

O desafio literário da semana é de Carina Destempero:

Escrever um texto a partir do ponto de vista de um objeto inanimado.


Textos publicados para este desafio:

- Delícias
6/06 - A casa
7/06 - Pedra no sapato
8/06 - “Mas que bobagem as rosas não falam”
9/06 - Envolvendo amor
10/06 - rotina