Vidas interrompidas

13 de junho de 2017 - 3a.feira, Luis Mangi, Semana 12 Jun a 17 Jun, Texto


Sentaram-se à mesa às nove horas. Era para ser um jantar de celebração, desses que casais de namorados fazem nesse dia. A comida era farta mas, de alguma forma, se viam coagidos inconscientemente a adiar o máximo aquele momento. Nenhum sabor seria capaz de seduzir o paladar agora. Nenhum prazer era possível.

Permaneceram os dois ali sentados sem dizer uma palavra, interrogando as paredes, os objetos da sala, os pratos na mesa. Interrogando com olhos irrequietos, mas que já não tinham mais brilho algum. “Há uma tensão paradoxal entre o silêncio e a expressão”, me disse uma vez um amigo, hoje distante. Era para ser um jantar de celebração, lamentavam os dois, e era o silêncio que me dizia isso. Um silêncio diferente do meu, imposto por genes defeituosos. Uma vida interrompida já no primeiro choro, na primeira respiração, no primeiro contato com o mundo exterior, este mundo opressivo e apavorante.

Amigos de todas as horas, cúmplices de lutas diárias, por que se calavam agora? O que os detinha e impedia seus passos? Por que haviam desertado de tudo?

Ninguém jamais diria, eles certamente não me diriam, mas, no entanto, era tão óbvio. Julgavam o seu passado e culpavam-se mutuamente pelos meus genes defeituosos, pelos sonhos que não realizaram, pelos planos que não foram à frente.

Até que ponto tinham interrompido suas vidas?

Sem acusar, sem dizer palavras, permaneciam os dois sentados. E nunca havia sido tão doloroso para mim assistir à sua vulnerabilidade. Nunca as cadeiras e a mesa de jantar foram tão francas. Nunca as paredes da casa me pareceram tão frágeis.

Essa noite não ficou registrada. Nenhum dos dois pegou o celular. Não houve fotos nem selfies. Nenhum dos dois se empenharia em lembrar daquela noite. Por alguma razão, porém, a cena chega até a mim tantos anos depois. Um imagem quase estática. Um milissegundo resgatado na infinidade do tempo. Meus pais sentados em silêncio, prostrados diante da mesa, os ombros curvados, as cabeças baixas, e a comida ainda intocada.

 

Luis Mangi


Desafio da Semana:

12/06 - Limites

Luis Mangi

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Vivo em algum lugar entre esse mundo e a imaginação. Escrever foi a forma que encontrei para tornar a realidade mais suportável e para não deixar a imaginação me levar de vez.

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