Dos motivos que me fazem calar quando eu mais precisaria escrever

23 de dezembro de 2016 - 6a.feira, Daniela Lusa

09 de novembro de 2016. “Dani, eu não consigo reagir”, ele me disse quando cheguei em casa com o coração apertado por já saber do que ele ainda não sabia. Encarei por um instante seus olhos tristes e amarelados e abaixei a cabeça, sem conseguir dizer uma palavra sequer. O que eu não imaginava é que o câncer estava devastando tão rapidamente o meu pai ― e estava prestes a nos devastar, também. 

16 de novembro de 2016. Foi a última vez que vi meu pai em casa. Estava bem, na medida do possível. Estava otimista: era para ser apenas uma cirurgia. Ele estava pronto para encarar o tratamento. Mas não teve a chance de lutar contra a doença. 

18 de novembro de 2016. Eu não estava preparada para ver meu pai, aquele homem que carregava qualquer peso nas costas, em uma cama de hospital. Amarelo, debilitado, sem conseguir respirar direito. A verdade é que nunca estamos preparados para esses golpes que a vida nos dá. Ninguém viu, mas eu desmoronei por dentro e, mesmo assim, me mantive em pé. Eu era feita de desespero e angústia, mas meus olhos não denunciaram a aflição ao meu pai. Eu não podia deixá-lo saber que o seu sofrimento me fazia sofrer também. Se eu soubesse que aquela seria a última vez que eu o veria com vida… Mas eu sabia. Infelizmente eu sabia que aquela seria a última vez de muitas coisas. A última vez que ouviria sua voz. A última vez que sentiria a força de sua mão apertando a minha. A última vez que eu tentaria tranquilizá-lo. A última vez que eu lhe serviria água. A última vez que eu ouviria sua respiração. Foi uma madrugada inteira de últimas vezes. E Deus me deu a oportunidade de falar com o meu pai pela última vez: eu pedi perdão e agradeci por tudo o que ele fez por mim, pelo que ele fez de mim. Pedi que descansasse. Acho que ele me ouviu.

19 de novembro de 2016. A luz do Sol iluminou o dia, mas meu pai não acordou. Por um descuido da Vida, a Morte me pegou pelos ombros e me colocou diante de uma realidade cruel e inevitável: ela fechou serenamente os olhos do meu pai. E então eu soube que depois daquela madrugada de últimas vezes viria uma sucessão de dias de “nunca mais”. Eu nunca mais ouvi sua voz. Eu nunca mais pude ligar pedindo para ele me encontrar. Eu nunca mais o vi brincando com os gatos. Eu nunca mais vou ver meu pai. Meu pai nunca mais vai voltar para casa. 
Mas, às vezes, eu ainda espero ele chegar.

Daniela Lusa

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Às vezes, eu não sei o que quero. Outras vezes, eu sei o que não quero. Sempre quis ser professora por sonho, hoje sou por paixão. Da faculdade de Letras, nasceu o amor pelas palavras, pelos textos. Busco fuga nas palavras porque vivo cercada pelo silêncio, aqui dentro de mim. Escrevo para não sufocar. O problema é que, às vezes, o que sinto é intransponível em palavras.

Uma resposta para Dos motivos que me fazem calar quando eu mais precisaria escrever

  1. Às vezes basta não dizer nada. é o que estou fazendo

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