Don J em “A PERGUNTA”

5 de abril de 2014 - Sem categoria

Ora, um sedutor profissional precisa usar todo seu tempo livre para exercitar o poder de conquista. Entretanto, mesmo com toda a dedicação à arte do galanteio, é praticamente impossível seduzir a mesma pessoa todos os dias e por isso a resposta é: sim.

A pergunta foi se eu, Don J, já havia encontrado alguma vez um amor verdadeiro e aí está. Sei que parecem justificativas diferentes, mas para mim dá no mesmo, sou como aquele escalador que sonha a vida inteira com o alto da montanha e imediatamente o renega no momento em que realiza a façanha: nossa verdadeira paixão é pelo que era ou se torna inatingível.

E completo a resposta: centenas, na verdade.

Esta a que me referi há pouco e cheguei a me relacionar por um bom tempo foi o primeiro amor: me abandonou quando, devido a compromissos sexuais, deixei de encontrá-la. Carente. O segundo amor sumiu porque descobriu debaixo de nossa cama as cartas de amor que recebi das amantes que tive enquanto estávamos noivos. Insegura. Em seguida teve aquela que fugiu do altar quando, àquela altura da cerimônia em que o padre pergunta se alguém tem algo contra aquele casamento, descobri que metade da igreja era formada por amantes que não titubearam em revelar minhas escapadelas e promessas de amor eterno. Ingrata.

Daí em diante, quanto mais o tempo passava, mas fácil se tornava encontrar um novo amor porque mais difíceis se tornaram as conquistas. Meu olhar penetrante começava a ser obliterado por grossas lentes de óculos. O chapéu, retirado na hora de cumprimentar a dama, deixava de amparar uma vasta cabeleira e passava a escorregar de uma frondosa calvície. E mais tarde nem o sorriso surtia mais efeito: quanto menor a quantidade de dentes, menos encantava.

Até chegar aqui e responder a esta pergunta desinteressada feita por você que me entrevista displicentemente, sem o cuidado de se afastar temendo não resistir aos meus encantos só porque daqui, desta cadeira de rodas, nada posso fazer além de me apaixonar perdidamente por esta bela mulher que olha para mim com um misto de curiosidade e pena.

Marcos Bassini

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