Mas me contaram que o silêncio cortante durou três corridas até a marca do pênalti…

- Obrigada pela companhia durante a noite. A voz doce e o leve sorriso nos lábios são marcas de Maria. Transformam tudo em brisa.

Pensou interrogações, elaborou travessões e até pensou em evocar aspas da curta algibeira, mas resolveu apenas pontuar furtivamente (pois não havia mais sol no quintal):  

- O elevador. O elevador chegou, Maria. Sorriu – educadamente.

- Sim. Beijo!

- Beijo.

Só depois de ouvir o ruído do elevador descendo à portaria – ainda da fresta da porta, de onde tingia de outros tons a cena – que Maria Céu percebeu: o seu roupão azul pouco combinava com as tatuagens espalhadas pelo corpo e com os cabelos – negros e curtos cuidadosamente desajeitados que tanto diziam sobre aquela mulher.

- Nossa. Exclamou, depois de fechar a porta, caminhar para a sala e se deter ao passar em frente ao grande espelho da sala. Percebeu que a sombra também azul ainda dava contornos aos olhos castanhos.

Suspirou. Recobrava tepidamente os sentidos. Tentava realinhar os pensamentos. Mas, sem elaborar muito, se pôs a organizar os objetos espalhados pela sala: duas taças, um cinzeiro lotado, almofadas pelo chão, potes com queijos em cubos, uma garrafa de vinho aberta e pela metade, sem a rolha, as cadeiras fora da mesa, violão, papel de cartas, canetas coloridas espalhadas sobre o tapete e um carinho tímido sobre a poltrona marrom, embaixo da janela.

Serviço rápido. Quinze minutos foram mais que necessários para que Maria pudesse apagar aquela trilha que a levou ao quarto de dormir.

Sentou-se na cama, ao lado do criado-mudo. Iluminada apenas pelo abajur improvisado em uma antiga garrafa de uísque, retirava os anéis, os cordões e os brincos. Como se estivesse seguindo um protocolo, depositava um / a / um na velha caixinha de metal – presente da vó Dinha.

Como Otis, a máquina fria carregadora de gentes, aquela caixa também tinha tarefa de carregar os pontos e as vírgulas de Maria. Lembranças. “Coisa de quem prefere existir a simplesmente viver”, costumava dizer.

Ritual cumprido. Encaminhou-se em direção ao banheiro. Passou pelo portal e se deteve frente ao pequeno espelho no armário pendurado em cima da pia. Abriu a torneira da pia e começou a vasculhar as gavetas à procura de um lenço umedecido para se despir das cores daquela noite que ainda estava em seu rosto.

Na primeira gaveta, do lado direito.

Com a embalagem nas mãos, olhar agora fixo no espelho, começou a puxar a primeira folha da caixa. Mas a textura diferente do papel lhe chamou a atenção.

Observou mais atentamente e descobriu ali (sem olhar de espanto), escrito com letras tímidas, trêmulas e irregulares, um bilhete: “… só vejo flores em você. Um Beijo,”

Com a ponta dos dedos indicadores e polegares examinou mais uma vez a textura do papel, fitou o seu reflexo no espelho. Se virou calmamente para a porta e caminhou tomando a direita do corredor que ligava a sala ao quarto.

Sentou-se ao lado do criado-mudo. Ascendeu o abajur. Pegou em seguida a caixinha da vó Dinha. Abriu o cubo de metal e encontrou, por sob as quinquilharias, um envelope amarelo. Pegou o bilhete que carregava consigo, releu, e – com todo o cuidado – o guardou junto com as outras sedas.

Realmente não havia sol no quintal.

Se havia uma coisa que encantava Maria na região Central de Belo Horizonte era: os prédios antigos em estilo eclético e seus elevadores, máquinas frias de carregar gentes. Bastava o ascensorista perguntar o andar e fechar as grades para ela iniciar o exame minucioso. Sabia que todos tinham no chão, perto da porta, uma tatuagem: Otis, em letras douradas e fonte clássica.

- Aqui há Otis! Exclamava silenciosamente como um mantra.

Ela não sabia porquê, mas, com aquele envelope na mão, se pegou repetindo o seu mantra:

- Aqui há Otis!

E com um sorriso discreto nos lábios, fechou a caixinha. Porém, antes de voltá-lo para o criado…

- Me dói… dói muito, sabe? A interrogação ecoa pelas seis paredes do quarto sem Maria conseguir precisar bem sua origem.

- Será que estou maluca? Pensou, fixando sua atenção no silêncio.

- Quando eu menos espero, vem e você e me corta. E esse corte sangra. A vida. A flor. Você envelopa tudo amarra em fitas de pano coloridas e deposita em mim, seu altar. Pensa que é impunimente…

- Não acredito que estou ouvindo uma caixa!? Maria diz, com o objeto mais próximo do rosto e olhar incrédulo. Aos poucos, e ainda desconfiada, ela cria coragem e arrisca uma pergunta:

- Caixa?!, Do quê você está falando?

- Falo dessas flores de amor que brotam em você.

- Que flores? Diz da que colhi no alto da montanha, aquela verde com tons de lilás, cravejada por pedras coloniais que dá de frente para matriz? Risos. Aquilo é passado.

- Tenho aqui comigo, a lembrança feliz e comovida do seu caminhar feliz pelos campos da nascente do Jequitinhonha, Maria. Tenho aqui. Quer ver? Papel de seda vermelho, dobrado em 8 quadrados, 2012. Descrição: “linda flor do centro de Minas que enfeita a nascente do braço do mar, um beijo. Aurélio.”.

- Sim. Mas é passado. O que passou, passou. Disse Maria.

- Será?, desfiou a caixa de metal. Respire novamente aquele ar que lhe cercava no alto daquela montanha verde-lilás. Tente. Feche os olhos. Sinta. Relaxe. Sem mais ou menos, nem um copo ou um corpo. Deite, durma. Não tenha medo de acordar, mesmo que lhe assuste o nascer do dia.

Desta vez, me contaram que o silêncio cortante durou apenas uma corrida até a marca do pênalti…

Subitamente, Maria colocou a caixa em cima do criado, sem muitos cuidados, e correu para o banheiro. Com os braços esticados, mãos apoiadas no bojo da pia e cabeça baixa, ela observava a água indo pelo ralo – a torneira ainda estava aberta. Ela tentava, mas não entendia aquele bolor que sentia se formar perto do umbigo.

Os olhos marejavam, então, decidiu fechá-los.

- E eu nem sei uma oração qualquer, pensou. Pensou.

- Meu Santo Anjo…, buscou nas memórias da infância.

De olhos ainda fechados, sentia apenas carinhos leves percorrerem as bochechas até o canto dos lábios. Mas continuou a oração qualquer.

Ficou em paz. Se deu conta de abrir os olhos e se deparou com um mar de pétalas de margaridas dentro do pequeno bojo da pia.

Sem reação, ergueu-se lentamente e encarou o seu rosto refletido no espelho. Foi aí que percebeu:

- São flores.

Sorriu.

Oi, André. Tudo bem?

Oi, Rosa. Tudo. E você?

Neste momento, como em todos em que se deparava com uma mulher com nome de flores, André imaginou uma rosa no lugar do rosto de Rosa. Era inevitável. Um pensamento tão forte que mesmo quando pensava em… Leia Mais…

Algumas esperas dão quase tanto prazer quanto o ato esperado em si. Quem nunca saboreou a doce dor de um pleasure delayer fabricado pelos desencontros do destino?

 

Há dias (épocas?) em que a gente de repente acorda enredado no meio de uma trama de Almodóvar,… Leia Mais…

 

Explicava.

E enquanto explicava sentia apagando devagar em mim a chama fria da memória. À minha frente um pequeno caderno em branco faltoso que só. Sem linhas. Sem margens e sem nada. Retornava já de minha temporada no inferno. E sabia de algum modo que desconhecia… Leia Mais…

She Loves You

19 de julho de 2014 - sábado

O livro dos Beatles que ele colocou em seu colo, pesa até hoje. 

Durante esse tempo, sete anos para ser mais exato, se ele pensou que perdeu seu amor, mesmo quando ela ligou para dizer que estava tentando dar uma chance a alguém (não era isso?,… Leia Mais…

Ela ainda te ama.

Posso ver em seus olhos, menino, parecem confusos. É ela, eu sei, encontrei a moça na rua ontem, caminhando, e a cada passo ela sofria. Não pense que a perdeu, eu pude sentir, você ainda existe dentro dela e o amor… Leia Mais…