She Loves You

19 de julho de 2014 - sábado

O livro dos Beatles que ele colocou em seu colo, pesa até hoje. 

Durante esse tempo, sete anos para ser mais exato, se ele pensou que perdeu seu amor, mesmo quando ela ligou para dizer que estava tentando dar uma chance a alguém (não era isso?, “preciso te libertar para que você possa viver uma história, a que não podemos: do modo como gostaríamos, da forma como precisávamos”), se enganou: she says she loves you.

Ela, que entrou desavisada em seu carro. Era só uma carona para uma festa. Era só uma festa para aliviar a dor de uma recente separação, a convite de um amigo. Era só o amigo de um amigo. Era só voltar o rosto para o banco de trás quando ela entrou dizendo oi e acender a luz do teto, para repetir o gesto de voltar o rosto e confirmar. Era isso mesmo?, esse sorriso que ela deu ao entrar sem imaginar que ele se apaixonaria na hora e ela também, não agora, daqui a pouco, quando conseguir falar ao telefone, e ela confirmar, e morrer pela espera de alguns dias, e ainda mais alguns minutos antes de beijá-la assim que ela entrar no carro novamente, não com o mesmo sorriso porque aquele não tinha intenção, esse tem, ele pensa sei lá que intenção é essa, mas eu o quero pra mim. E a boca de onde ele surge, mas ela escreveu algo e quer mostrar. Ela – já – diz algo sobre culpa. Ele: “Não, não se culpe amor. Não somos o tipo que machuca.”

Tanto que ela não saiu do lugar. Viu o tempo rodar no relógio de uma forma patética, os aniversários se confirmarem. Ela ainda está na sala, sentada no sofá, diante dele, ao lado do amigo em comum, ainda no único momento em que abriu a boca para dizer algo, e ele enternecido com o tom da voz. A mão dele ainda está colocando o livro sobre as pernas dela, dizendo com o olhar convicto: estão todos aqui, ao redor, mas não me importo, eu te vejo, eu te vejo entre eles e por isso te mostro esse livro que acabei de comprar. 

Era você que estava lá, ao meu lado, rindo comigo entre as sessões 'biografia' e 'poesia' da mega livraria daquele shopping. Esses locais que eu – já – sei, não são muito a sua cara, mas comigo, isso cai em desuso. “Não, eu não estava”. Ela assiste a tudo, calada. Realmente ele conseguia vê-la, mesmo entre tantos que também estavam na sala, mesmo entre os que ele não poderia desviar o olhar nunca mais, onde fosse. Antes ela, antes eles juntos, ele disse. Ela, que não está triste por tê-la magoado. Não foi esse o caso, ele não era o tipo que machuca. “Mas como se alegrar quando se descobre que a felicidade chegou para nós com um pequeno detalhe: sob a condição de 15 anos de atraso?”.

Reféns do tempo, a vida toda.

Aproveita e me diz: qual desses dois modelos de amor teme mais, o fim? O que se prende tanto, ou o que se solta, todo, como o nosso, em nome dele mesmo? Qual se mantém mais vivo? Qual nos leva à constante e maior inquietação? Qual nos distrai o olhar diante da janela de um lugar qualquer numa tarde de dia da semana, lembrando; nos distrai o olhar numa conversa entre amigos, revivendo; nos distrai o olhar no meio de um filme, sentindo a falta do que nada traz em seu lugar, nem mesmo uma relação feita de certezas?

Que compromissos com a vida passamos a ter, reafirmamos ou deixamos de lado, quando o amor chega? Quem está mais certo ou errado quando uma decisão – afastamento – como essa é tomada? O que afasta ou o que é afastado? E em nome de que, pode me dizer? Antes que responda,

Mas agora, um outro homem entrou na sala e, ao invés de tirar o livro de seu colo, sentou sobre ele. 

She loves him.

 

Yassu Noguchi, acha que é contista, artista visual e poeta.

É criadora, com Marcos Bassini, do Haicai Combat, um slam de poetas recitando poemas curtos.

Ela ainda te ama.

Posso ver em seus olhos, menino, parecem confusos. É ela, eu sei, encontrei a moça na rua ontem, caminhando, e a cada passo ela sofria. Não pense que a perdeu, eu pude sentir, você ainda existe dentro dela e o amor… Leia Mais…

Seu Romeu tira o vinil do envelope empoeirado.

Parece um bom dia pra ouvir essa música.

 

 

Duas horas antes.

 

O telefone toca. Seu Romeu corre pra atender.

Não sabe que notícia vai sair do outro lado.

Sente a boca adormecer quando ouve a voz do médico.

 

 

Duas horas depois.

 

A vitrola… Leia Mais…

A lembrança
de tantas ex-amantes 
me pesa sobre os ombros
é muita gente entre os escombros
do meu pobre coração carente

De repente,
num rompante,
para esse andarilho
em meio a solidão de andar
e de bater o maltrapilho coração

Para, ao mirar seu rosto
e só me resta o gosto
que saiu da boca e… Leia Mais…

Quer saber a resposta dela? Ainda é sim. Não, você não a perdeu, mas deveria ter perdido, pois é isso que acontece quando não cuidamos direito das coisas e das pessoas (apesar de termos uma tendência muito maior de cuidar das coisas). Estranho é… Leia Mais…

Sabe, Don J disse, nunca fui de respeitar ninguém, já lhe contei minha história, a sinceridade nunca foi meu forte, apesar da confissão que me preparo para fazer, minha única paixão era fazer com que se apaixonassem por mim, admito, mas tenho que tirar… Leia Mais…