Sexta fria de junho. Dessas sextas tão frias que grudam como pequenas máculas em nosso instinto de sociabilidade. Moram no adeus, ou perto do tédio.

Foi aí que a peguei pelos olhos, pelo atrito do metrô. Olhares em feixes, sustos e vultos, fora de foco. Que sexta é essa? Grave. Fria. Preciso falar. Do cabelo, dos olhos agudos – crista de galo de briga, em crise –, da forma como o lábio, um risco, arqueia em sorriso. É movimento, insisto. E sinto. Silêncio antes do passo. Do toque.

O telefone toca.

Não posso. Não com esse prazo. O senhor sabe.

O que me importa?  – disse o chefe.

Um naco branco do vestido brilha, fantasma flutuando pela porta, lépido. Desceu uma estação antes. Que dia é hoje que me atropela?

Um soluço. Rosno. Pausa na quimera.

 

***

 

Metade de mim é sonho. Todo dia o metrô no mesmo horário. Nem sinal dos olhos críticos, nem sinal dos lábios em arco de sorriso.

Um dia, sexta cansada, que já de manhã se quer sábado, atraso.

Então, naco de vestido leve, olhar cravado e breve. Sonho?

Oi.

Tudo é movimento, insisto. É movimento, eu sinto. O toque.

O telefone toca.

Diagrama. Finança. Planilha.

Reunião. Acerto. Respira…

Teu emprego depende disso. Vem rápido e me traz uma aspirina.

Não, chefe. O que me importa todo o resto agora?

Silêncio.

Viro o rosto e vejo feixes.

Lábios em arcos de sorriso.

 

 

Jeferson Ferreira é formado em Letras e tem mestrado em Literatura.

Nas horas úteis, Jeferson vende seu tempo para o capitalismo. Nas demais horas, as horas que importam, faz poesia.

Vocês podem conferir alguns poemas dele aqui: https://semperjeff.wordpress.com/

Ou também podem encontrá-los, de forma mais organizada, no , livro que ele lançou em Dezembro de 2014 pela Editora Kazuá: http://editorakazua.com.br/autor/jeff-ferreira/

Olho pro lado, vejo a cama vazia e isso não me incomoda.

Minha escova de dente sozinha no banheiro também não é um problema.

Meus tênis não precisam mais dividir espaço.

O guarda-roupa agora tem mais lugar que roupa.

O cinzeiro não fica mais jogado pelos cantos. Na… Leia Mais…

Enquanto engulo uma empada de palmito me vem a cabeça todos aqueles dias. Penso que tudo poderia ter sido mais: intenso, verdadeiro, sem medo. Não que tenha sido ruim, longe disso. Tivemos momentos maravilhosos. Mas perdemos muito tempo tentando teorizar os sentimentos. Carência? Amor?… Leia Mais…

Durante muito tempo ela sonhou com o dia em que a vida daria as voltas tão prometidas e se esbarrariam novamente. Coisa do acaso, do destino, de sorte…coisa que precisava acontecer. Ela pintou cenários, decorou falas, criou trilha sonora e efeitos especiais. Se viu (em próclise mesmo)… Leia Mais…

Chego todas as noites ao meu quarto e, de uma maneira desesperadora, pulo em minha cama, é inevitável não lembrar dela aqui, onde passamos tantas noites de filmes, onde planejávamos grandes “para sempre” e até alguns amores eternos. Criávamos finais sem fins a todo… Leia Mais…

Tiozinho

19 de julho de 2015 - Sem categoria

 

Você me chama de comedor de ópio mas só eu sei

o trabalho que dá parecer doidão, dizer um merda

fora de contexto só pra disfarçar meu pince-nez

 

comentar despretensiosamente o savoir faire

de fulano sem dar a entender que o francês é apenas

mais uma entre as línguas… Leia Mais…