Eu tava chegando em casa quando vi a movimentação. Ninguém precisa te dizer que tem alguma coisa errada. Coisa errada tem cheiro de coisa errada. A rua alternava entre vermelho e azul. Tinha a mesma quantidade de carros de polícia e carros de bombeiro. Pessoas espalhadas em pequenos grupos conversavam olhando pro alto. O trânsito tinha sido desviado pra rua debaixo. Do resto, parecia que tudo corria bem. Não tinha nenhum som estranho. Não tinha nenhuma ambulância. Pensei, bom, parece que nada de grave aconteceu. Quando eu virei na minha rua, tinha pedaços de vidro por toda calçada. Um bombeiro colocou a mão no peito no momento que eu coloquei a mão na porta. Senhor, teve um incêndio no prédio, o senhor precisa aguardar a vistoria e a liberação pra subir. Em qual apartamento… Nessa hora um zumbido agudo e baixo não me deixou ouvir o resto. Como eles vão dar a notícia pro morador? Quem será o morador? Será que tá tudo bem? Será que atingiu muitos apartamentos? Será que tinha gente morando onde pegou fogo? Porque pode ser que nem tinha gente morando. Lembrei de como é dolorido perder coisas. Lembrei das coisas que já perdi na vida. Meus pais que foram embora antes dos 19. Meus empregos que ficaram pra trás. Meus brinquedos. Meus dois cachorros. Meus avós. Alguns amigos. A carteira semana passada. A Márcia ano passado. Talvez de todos os meus relacionamentos, a Márcia foi o que mais doeu perder. … senhor? Qual apartamento o senhor mora? No 72, respondi. O bombeiro colocou a mão no meu ombro e pediu que eu acompanhasse ele até a viatura. Foi só nessa hora que eu percebi que era comigo toda aquela história. Eu era o personagem do incêndio. Por isso todo mundo tava me olhando quando eu passei. Por isso não tinha ambulância. Por que não tem ninguém em casa quando eu não tô em casa. Eu comecei a rir. O bombeiro me abraçou achando que eu chorava. Mais algumas pessoas chegaram pra me consolar. Eu continuei rindo. Não era de nervoso. Era de certeza. Perder tudo seria muito mais dolorido se eu tivesse alguma coisa. Ninguém entendeu nada.

Nem todos os desastres são estrondosos. Aliás, eu diria que a maioria deles acontece em silêncio, entre linhas, em um tique de relógio invisível a olho nu. Os desastres espalhafatosos, barulhentos e dramáticos, aqueles dos quais nos lamentamos e pelos quais os outros se… Leia Mais…

Era tarde da noite de domingo quando cheguei ao prédio e toquei o interfone. Fazia muito frio. O zelador conferiu as câmeras de segurança e abriu o portão. Cumprimentou-me com um sorriso sem graça, desses que deixam escapar uma ponta de piedade pelos olhos…. Leia Mais…

ESCURO

20 de março de 2017 - 2a.feira, Ana Suy, Semana 20 Mar a 25 Mar, Texto

 

Não me lembro de como as coisas aconteceram. Era o início dos anos noventa, eu tinha acabado de completar 8 anos e estava animada para ir à praia, e embora minha mãe me garantisse que eu não poderia entrar na água, pois ela estaria… Leia Mais…

O desafio literário da semana é de Tiago Moralles:

Essa noite eu sonhei que chegava de viagem e tinham roubado todas as coisas da minha casa. Vamos escrever sobre perder todos as coisas de uma vez num desastre.

 


Textos publicados para este desafio:

20/03 - ESCURO
21/03 - O poeta não morreu
22/03 - A arte de viver
23/03 - A vida é imprevisível até quando é previsível

Ele fica ali. Parado. No controle. Com tranca de lingueta. Travado por um cadeado Papaiz. Chapa de ferro de 2.5 milímetros. Nenhuma fresta para que eu possa ver a rua. O olho mágico dele já nem olha. As dobradiças quase travadas. Ele na sua… Leia Mais…